MALAGUETA DO DESERTO
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A FORÇA DA CIRCULAÇÃO DO DINHEIRO

A FORÇA DA CIRCULAÇÃO DO DINHEIRO

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A FORÇA DA CIRCULAÇÃO DO DINHEIRO

Na manhã de quarta-feira, 25 de outubro de 1933, quando Aracati comemorava sua emancipação política, desembarcou do vapor Bragança o caixeiro-viajante Zélnio Calado, da Metalúrgica Saruê.
Era sua primeira visita à cidade.
Trazia apenas uma mala, alguns catálogos e uma confiança invejável de quem acreditava realizar grande transação comercial.
Hospedou-se no Hotel Cabeça de Bagre, o único que ainda possuía um quarto vago. Pretendia permanecer dois dias, visitar comerciantes e apresentar as vantagens das pás, foices, enxadas, chibancas e demais maravilhas produzidas pela metalúrgica.
O que ele não sabia era que, justamente naquele dia, Aracati parava para festejar.
As lojas estavam fechadas.
Os escritórios silenciosos.
Os comerciantes ocupados entre procissões, discursos e mesas fartas.
Mesmo assim, resolveu tentar a sorte.
Antes de sair, deixou apenas a mala na recepção.
Nem chegou a registrar oficialmente sua hospedagem.
Enquanto conversavam sobre o calor, o rio Jaguaribe e as notícias que chegavam de Fortaleza, o proprietário do hotel, Vicente Cabeça de Bagre, pigarreou e falou:
— Acho prudente o senhor pagar logo as diárias. A cidade anda cheia. Melhor prevenir do que remediar.
Zélnio sorriu.
— Tem razão.
Retirou duas moedas de mil-réis e as entregou ao hoteleiro.
Vicente guardou-as cuidadosamente e respondeu:
— Se o senhor resolver não ficar, devolvo cada tostão. Palavra de homem.
E lá se foi o caixeiro-viajante, atrás de clientes que, naquele feriado, pareciam mais difíceis de encontrar do que chuva em outubro.
Mal Zélnio dobrou a esquina, Vicente também saiu.
Foi direto ao Mercado Público.
Devia exatamente dois mil-réis ao açougueiro Martins Cajazeira pela carne comprada dias antes.
Pagou a dívida usando justamente as duas moedas recebidas do viajante.
Martins, que andava fugindo do dono de uma mercearia como diabo foge da cruz, aproveitou a oportunidade.
Tomou o dinheiro e foi imediatamente quitar sua conta com Armando Pacamão, fornecedor de feijão, arroz, farinha e outras necessidades da vida.
Armando era um homem tão correto que, ao sentir o peso das moedas no bolso, quase ouviu sua consciência respirar aliviada.
Nem voltou para casa.
Seguiu diretamente para a Farmácia Nossa Senhora de Fátima.
Devia os mesmos dois mil-réis a Chico Alemão, referentes a remédios comprados meses antes.
Quitou tudo.
Chico Alemão, porém, saiu da farmácia resmungando.
Acabara de descobrir que seu sobrinho, Zé Maria, devia exatamente dois mil-réis ao Hotel Cabeça de Bagre.
Resolveu acabar logo com aquela vergonha familiar.
No caminho, esculhambava o sobrinho em voz alta.
Chegou até a chamá-lo de “filho da...”.
Interrompeu-se no meio da frase.
Lembrou que a mãe do rapaz era sua própria irmã.
Engoliu o restante do palavrão e continuou caminhando apenas bufando.
Chegou ao hotel.
— Quanto é a conta do Zé Maria?
— Dois mil-réis.
Chico entregou as mesmas duas moedas.
Vicente recebeu o dinheiro justamente quando avistou, ao longe, uma figura inconfundível.
Era Zélnio, o caixeiro-viajante.
Não havia em todo Aracati outro cristão com as pernas tão tortas.
O caixeiro entrou sorrindo.
— Seu Vicente, o feriado acabou com meus planos. Vou pegar o vapor das cinco. Vim buscar minha mala... e o dinheiro das diárias.
— Pois não.
Vicente abriu a gaveta e devolveu exatamente as mesmas duas moedas.
Zélnio agradeceu, pegou a mala e embarcou de volta como havia chegado: levando consigo o próprio dinheiro.
Anos depois, tentando entender aquela sequência de acontecimentos, Vicente resumiu tudo para sua irmã Virgínia:
— Curioso... O dinheiro nunca foi meu. Apenas estava depositado comigo. Mesmo assim, quitou minha dívida com o açougueiro; depois pagou a mercearia; em seguida, a farmácia; voltou para minhas mãos... e finalmente regressou ao verdadeiro dono.
As duas moedas fizeram uma verdadeira excursão por Aracati.
Passearam pelo hotel, pelo mercado, pela bodega, pela farmácia e retornaram ao bolso do viajante, como se nada tivesse acontecido.
No entanto, durante esse breve passeio, cinco dívidas desapareceram.
Ninguém perdeu dinheiro.
Ninguém ficou devendo.
E o caixeiro-viajante foi embora exatamente com as mesmas moedas.
Ainda hoje, os descendentes de Vicente Cabeça de Bagre discutem esse episódio.
Uns juram tratar-se de milagre.
Outros falam em mágica.
Os economistas chamam de circulação da moeda.
Os matemáticos fazem contas.
Os contadores conferem lançamentos.
E o povo de Aracati, mais sábio do que todos eles, apenas concluiu:
— Dinheiro parado serve apenas para criar mofo. Quando resolve passear, paga até dívida de quem nunca o possuiu.
A questão segue em aberto: se o dinheiro não ficou em Aracati, como quitou todas essas dívidas? Quem perdeu?

Fortaleza, 31 de julho de 2026
José Nilton Fernandes