O ESTUDO DE MERCADO QUE ESQUECEU O PIRÃO DE CARANGUEJO
O ESTUDO DE MERCADO QUE ESQUECEU O PIRÃO DE CARANGUEJO
Houve um tempo em que Aracati parecia ter firmado um acordo secreto com a vida.
As crianças cresciam saudáveis, os adultos envelheciam sem pressa e os velhos insistiam em permanecer por aqui muito além do razoável. O cemitério São Pedro passava meses sem receber visitantes definitivos, exceto parentes saudosos, curiosos ocasionais e alguns gatos que utilizavam os mausoléus como dormitório.
Foi nesse ambiente extremamente desfavorável ao setor funerário que surgiu Arnaldo. Era um homem alto, forte, corado, de fala convincente e confiança suficiente para vender guarda-chuva em época de seca e suspensório para cobra.
Ao contrário do que muitos imaginam, Arnaldo não era um aventureiro irresponsável. Antes de abrir a primeira funerária da cidade, encomendou um estudo de mercado.
E não foi qualquer estudo.
Contratou uma empresa de consultoria de Fortaleza, composta por especialistas que empregavam palavras perigosas como “projeção demográfica”, “curva de mortalidade”, “tendência populacional” e “demanda reprimida por serviços póstumos”.
Os técnicos chegaram a Aracati munidos de pranchetas, calculadoras e expressões sérias. Durante semanas, entrevistaram moradores, analisaram registros de cartório, examinaram estatísticas e produziram um relatório de quase duzentas páginas, frente e verso.
Segundo os cálculos dos especialistas, a cidade geraria um número perfeitamente razoável de falecimentos por ano, suficiente para manter uma funerária com uma Caravan usada, ensejando ao proprietário possuir até uma casa de praia em Majorlândia.
Arnaldo leu o relatório e enxergou o futuro. Abriu a Funerária Sono Eterno. Comprou caixões de todos os tamanhos. Providenciou uma Caravan usada. Mandou imprimir cartões. Instalou uma placa respeitável próximo à Igreja do Bomfim.
E aguardou. Esperou. Continuou esperando. Esperou mais um pouco.
E nada. Absolutamente nada.
Os meses passavam e os clientes simplesmente não apareciam.
Enquanto as bodegas vendiam farinha, os bares vendiam cerveja e as farmácias vendiam remédios, Arnaldo não conseguia vender sequer um caixão infantil azul destinado aos chamados “anjinhos”.
Foi somente depois de muito sofrimento financeiro que alguém descobriu o problema. Os consultores haviam cometido um erro gravíssimo. Analisaram números. Estudaram estatísticas. Examinaram documentos. Mas esqueceram de estudar os aracatienses.
Qualquer pessoa nascida na cidade poderia ter explicado.
A população local carrega no sangue uma extraordinária herança de longevidade transmitida pelos antepassados.
E a principal responsável por esse fenômeno atendia pelo nome de pirão de caranguejo. Os velhos de Aracati consumiam pirão de caranguejo desde o berço. Comiam no almoço. Comiam no jantar. Alguns, segundo a tradição popular, aceitavam até substituir remédio por pirão.
Havia quem jurasse conhecer um pescador de noventa e oito anos que remava contra a maré, carregava rede nas costas e atribuía toda sua vitalidade a três pratos diários da iguaria.
Outro afirmava que um senhor centenário ainda paquerava viúvas na Praça da Matriz graças aos poderes revigorantes do caranguejo.
Verdade ou não, o fato é que os aracatienses pareciam envelhecer quando quisessem. Morrer era algo que deixavam para depois. Muito depois.
Quando Arnaldo percebeu isso, já estava atolado em prestações.
Tentou reagir. Promoveu campanhas. Distribuiu folhetos. Chegou ao ponto de rifar um caixão. Eu mesmo comprei duas cartelas no bar de João Luís Ponciano. Graças a Deus, não fui sorteado. Aliás, nunca soube se houve sorteio nem se apareceu alguém interessado em receber o prêmio.
Foi então que a sorte pareceu finalmente sorrir.
Uma senhora procurou a funerária informando que sua mãe havia falecido em Fortaleza e desejava ser sepultada em Aracati.
Negócio fechado. Metade do pagamento adiantado. Arnaldo quase chorou de felicidade.
Abasteceu a Caravan. Calibrou os pneus.
E partiu para Fortaleza como quem viaja para buscar um prêmio de loteria.
O restante da história tornou-se uma das principais confusões funerárias já registradas na memória popular.
Na Policlínica de Fortaleza, um funcionário apontou para um dos corpos:
É aquele, o de dona Maria, de Aracati.
Arnaldo acreditou. Carregou. Trouxe.
Chegou a Aracati. Preparou o velório. Organizou o enterro.
Tudo parecia perfeito. Até a chegada da filha da falecida, vinda de Natal.
Ela aproximou-se do caixão. Observou atentamente. Piscou algumas vezes.
E anunciou:
— Essa não é minha mãe. “Não é a mamãe”!
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que dizem ter incomodado até um casal de corujas que habitava o campo santo.
Descobriu-se então que Arnaldo havia trazido a falecida errada.
Enquanto isso, o empresário comemorava seu primeiro grande contrato tomando cerveja nas Nambus, um comércio detestado pelas integrantes da Congregação Filhas de Maria e proibido pelo clero.
Quando soube do ocorrido, precisou retornar imediatamente a Fortaleza.
Mas a situação já havia se tornado tão complicada que o corpo correto também fora enviado para o lugar errado.
Após uma sequência de desencontros, a verdadeira falecida acabou sendo sepultada em outra cidade. Por engano.
Pouco tempo depois, a Funerária Sono Eterno encerrou suas atividades. Arnaldo desapareceu de Aracati sem deixar endereço.
Outros juram que passou a vender seguro de vida.
A verdade é que o estudo de mercado estava quase certo.
Os números eram corretos. As projeções eram razoáveis. As estatísticas faziam sentido.
O único detalhe ignorado foi o mais importante de todos:
Quando se pretende abrir uma funerária, convém verificar se a população local tem ou não vocação para a longevidade.
Especialmente quando seus habitantes passaram gerações alimentando-se de pirão de caranguejo.
Porque existem mercados difíceis. Existem mercados saturados.
E existe Aracati.
A cidade onde até a morte precisava entrar em lista de espera.
Fortaleza, 05 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes
Houve um tempo em que Aracati parecia ter firmado um acordo secreto com a vida.
As crianças cresciam saudáveis, os adultos envelheciam sem pressa e os velhos insistiam em permanecer por aqui muito além do razoável. O cemitério São Pedro passava meses sem receber visitantes definitivos, exceto parentes saudosos, curiosos ocasionais e alguns gatos que utilizavam os mausoléus como dormitório.
Foi nesse ambiente extremamente desfavorável ao setor funerário que surgiu Arnaldo. Era um homem alto, forte, corado, de fala convincente e confiança suficiente para vender guarda-chuva em época de seca e suspensório para cobra.
Ao contrário do que muitos imaginam, Arnaldo não era um aventureiro irresponsável. Antes de abrir a primeira funerária da cidade, encomendou um estudo de mercado.
E não foi qualquer estudo.
Contratou uma empresa de consultoria de Fortaleza, composta por especialistas que empregavam palavras perigosas como “projeção demográfica”, “curva de mortalidade”, “tendência populacional” e “demanda reprimida por serviços póstumos”.
Os técnicos chegaram a Aracati munidos de pranchetas, calculadoras e expressões sérias. Durante semanas, entrevistaram moradores, analisaram registros de cartório, examinaram estatísticas e produziram um relatório de quase duzentas páginas, frente e verso.
Segundo os cálculos dos especialistas, a cidade geraria um número perfeitamente razoável de falecimentos por ano, suficiente para manter uma funerária com uma Caravan usada, ensejando ao proprietário possuir até uma casa de praia em Majorlândia.
Arnaldo leu o relatório e enxergou o futuro. Abriu a Funerária Sono Eterno. Comprou caixões de todos os tamanhos. Providenciou uma Caravan usada. Mandou imprimir cartões. Instalou uma placa respeitável próximo à Igreja do Bomfim.
E aguardou. Esperou. Continuou esperando. Esperou mais um pouco.
E nada. Absolutamente nada.
Os meses passavam e os clientes simplesmente não apareciam.
Enquanto as bodegas vendiam farinha, os bares vendiam cerveja e as farmácias vendiam remédios, Arnaldo não conseguia vender sequer um caixão infantil azul destinado aos chamados “anjinhos”.
Foi somente depois de muito sofrimento financeiro que alguém descobriu o problema. Os consultores haviam cometido um erro gravíssimo. Analisaram números. Estudaram estatísticas. Examinaram documentos. Mas esqueceram de estudar os aracatienses.
Qualquer pessoa nascida na cidade poderia ter explicado.
A população local carrega no sangue uma extraordinária herança de longevidade transmitida pelos antepassados.
E a principal responsável por esse fenômeno atendia pelo nome de pirão de caranguejo. Os velhos de Aracati consumiam pirão de caranguejo desde o berço. Comiam no almoço. Comiam no jantar. Alguns, segundo a tradição popular, aceitavam até substituir remédio por pirão.
Havia quem jurasse conhecer um pescador de noventa e oito anos que remava contra a maré, carregava rede nas costas e atribuía toda sua vitalidade a três pratos diários da iguaria.
Outro afirmava que um senhor centenário ainda paquerava viúvas na Praça da Matriz graças aos poderes revigorantes do caranguejo.
Verdade ou não, o fato é que os aracatienses pareciam envelhecer quando quisessem. Morrer era algo que deixavam para depois. Muito depois.
Quando Arnaldo percebeu isso, já estava atolado em prestações.
Tentou reagir. Promoveu campanhas. Distribuiu folhetos. Chegou ao ponto de rifar um caixão. Eu mesmo comprei duas cartelas no bar de João Luís Ponciano. Graças a Deus, não fui sorteado. Aliás, nunca soube se houve sorteio nem se apareceu alguém interessado em receber o prêmio.
Foi então que a sorte pareceu finalmente sorrir.
Uma senhora procurou a funerária informando que sua mãe havia falecido em Fortaleza e desejava ser sepultada em Aracati.
Negócio fechado. Metade do pagamento adiantado. Arnaldo quase chorou de felicidade.
Abasteceu a Caravan. Calibrou os pneus.
E partiu para Fortaleza como quem viaja para buscar um prêmio de loteria.
O restante da história tornou-se uma das principais confusões funerárias já registradas na memória popular.
Na Policlínica de Fortaleza, um funcionário apontou para um dos corpos:
É aquele, o de dona Maria, de Aracati.
Arnaldo acreditou. Carregou. Trouxe.
Chegou a Aracati. Preparou o velório. Organizou o enterro.
Tudo parecia perfeito. Até a chegada da filha da falecida, vinda de Natal.
Ela aproximou-se do caixão. Observou atentamente. Piscou algumas vezes.
E anunciou:
— Essa não é minha mãe. “Não é a mamãe”!
O silêncio que se seguiu foi tão profundo que dizem ter incomodado até um casal de corujas que habitava o campo santo.
Descobriu-se então que Arnaldo havia trazido a falecida errada.
Enquanto isso, o empresário comemorava seu primeiro grande contrato tomando cerveja nas Nambus, um comércio detestado pelas integrantes da Congregação Filhas de Maria e proibido pelo clero.
Quando soube do ocorrido, precisou retornar imediatamente a Fortaleza.
Mas a situação já havia se tornado tão complicada que o corpo correto também fora enviado para o lugar errado.
Após uma sequência de desencontros, a verdadeira falecida acabou sendo sepultada em outra cidade. Por engano.
Pouco tempo depois, a Funerária Sono Eterno encerrou suas atividades. Arnaldo desapareceu de Aracati sem deixar endereço.
Outros juram que passou a vender seguro de vida.
A verdade é que o estudo de mercado estava quase certo.
Os números eram corretos. As projeções eram razoáveis. As estatísticas faziam sentido.
O único detalhe ignorado foi o mais importante de todos:
Quando se pretende abrir uma funerária, convém verificar se a população local tem ou não vocação para a longevidade.
Especialmente quando seus habitantes passaram gerações alimentando-se de pirão de caranguejo.
Porque existem mercados difíceis. Existem mercados saturados.
E existe Aracati.
A cidade onde até a morte precisava entrar em lista de espera.
Fortaleza, 05 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes