MALAGUETA DO DESERTO
← Voltar aos textos
O HOMEM QUE COMIA CIGARROS

O HOMEM QUE COMIA CIGARROS

4 leituras
O HOMEM QUE COMIA CIGARROS

Dizem os estudiosos que o tabaco nasceu em algum lugar das Américas há milhares de anos, talvez entre os povos dos Andes bolivianos. Desde então, a humanidade inventou inúmeras maneiras de se relacionar com a planta.
Uns fumam.
Outros mascavam fumo como quem mastiga o próprio tempo.
Mas Aracati, terra que jamais se contentou em copiar o resto do mundo, produziu uma terceira modalidade, desconhecida dos arqueólogos, dos historiadores e até dos fabricantes de cigarro.
Essa inusitada prática era exercida por Dedé.
Dedé não fumava.
Dedé não mascava.
Dedé comia cigarros.
Comia com a serenidade de quem saboreia um pedaço de rapadura depois do almoço.
Colocava um cigarro inteiro entre os lábios e ia devorando-o aos poucos, metodicamente, sem pressa, sem culpa e sem qualquer preocupação com os avisos estampados nas embalagens. Quando chegava ao filtro, encerrava a refeição. Em seguida, iniciava outra.
E outra.
E outra.
Conta a tradição oral aracatiense — fonte muitas vezes mais confiável do que certos livros impressos — que Dedé consumia cerca de sessenta cigarros por dia.
Sessenta.
Era praticamente uma plantação ambulante de tabaco.
Dedé trabalhava como açougueiro no Mercado Público de Aracati. Alguns insistem em chamar essa profissão de magarefe. Outros preferem marchante. Em Aracati, porém, era simplesmente açougueiro, palavra suficiente para identificar quem passava o dia transformando bois inteiros em bifes, costelas e paneladas.
Mas o que mais chamava atenção em Dedé não era a profissão.
Era o tamanho.
Dedé era um homem alto. Muito alto.
Tinha ombros largos, peito avantajado e braços grossos como troncos de cajueiro antigo. Quando caminhava pelo mercado, a multidão parecia abrir caminho espontaneamente, como se obedecesse a uma lei natural da física: a força tem prioridade.
Antes mesmo de se tornar açougueiro, ainda muito jovem, começou a ganhar alguns trocados capando animais. Castrava bois, bodes, porcos, cavalos, jumentos e até galos. Dos animais domésticos, capava cães e gatos.
Era um dom de nascença, diziam.
Voltando ao seu peculiar hábito de consumir tabaco, havia uma regra amplamente conhecida entre os amigos:
Nunca ofereça fogo a Dedé.
Jamais.
Nem fósforo.
Nem isqueiro.
Nem brasa de fogueira.
Nada.
Quem ignorasse essa recomendação corria sério risco de desaparecer do mapa.
Foi exatamente o que aconteceu numa manhã memorável.
O expediente terminara cedo. Dedé vendera toda a carne disponível. Vendera um boi a retalhos. Vendera até os ossos. Lavou as mãos, retirou o avental e resolveu dar uma passada no salão de sinuca de Vicente, ali na esquina do mercado, de frente para o velho Ginásio Marista.
O ambiente estava movimentado.
Alguns jogavam.
Outros comentavam as jogadas.
E havia um sujeito desconhecido na cidade.
Baixinho.
Miudinho.
Bigode fino.
Natural de Itaiçaba, segundo afirmava.
Permanecia encostado próximo da porta, aguardando transporte para voltar para casa, enquanto fumava tranquilamente seu cigarro.
Foi então que Dedé entrou.
Como de costume, trazia um cigarro entre os dentes.
Mas não para fumar.
Estava começando a almoçá-lo.
O forasteiro, inocente como um cordeiro diante de uma onça faminta, interpretou mal a cena.
Imaginando prestar uma gentileza, sacou um isqueiro do bolso.
Produziu uma língua de fogo respeitável.
E aproximou a chama da ponta do cigarro de Dedé.
O silêncio caiu sobre o salão.
Alguns jogadores baixaram os olhos.
Outros examinaram atentamente o teto, como se procurassem rachaduras.
Houve até quem começasse a rezar em silêncio.
O resto aconteceu rápido demais para ser registrado pela história oficial.
Dedé fitou o homem dos pés à cabeça.
Recuou ligeiramente o cotovelo.
Fechou a mão enorme, de onde despontavam unhas capazes de impor respeito até a um tatu.
E disparou.
O soco encontrou seu destino.
O pequeno itaiçabense levantou voo.
Não foi uma simples queda.
Testemunhas juram que ele pairou alguns instantes no ar antes de partir em trajetória própria.
Outros afirmam que viajou pelos ares sem sequer compreender o que lhe acontecera.
Coincidentemente, naquele exato momento, passava pela rua um caminhão carregado de areia, seguido pelo pau-de-arara que o trouxera.
Depois disso, o forasteiro desapareceu.
Nunca mais foi visto em Aracati.
Ninguém soube se voltou para Itaiçaba.
Ninguém soube sequer se aterrissou em segurança.
Alguns garantem que foi embora com a areia.
Outros sustentam que ainda hoje está em órbita sobre o Vale do Jaguaribe.
O fato é que, desde aquele dia, ficou definitivamente provado que existem cigarros feitos para serem fumados, cigarros feitos para serem mascados e cigarros feitos para serem comidos.
E que, em Aracati, antes de oferecer fogo a alguém, convém descobrir qual é exatamente a finalidade daquele cigarro.
Por uma questão de prudência.
E de sobrevivência.

Fortaleza, 05 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes