MALAGUETA DO DESERTO
← Voltar aos textos
ROSALINA, A MULHER QUE OLHAVA PARA O CHÃO

ROSALINA, A MULHER QUE OLHAVA PARA O CHÃO

2 leituras
Ocorre-me ao espírito, entre tantas recordações vividas em Aracati, a figura de uma mulher chamada Rosalina.
Eu não sabia onde morava, de que família descendia, nem sequer conhecia seu nome completo. Para mim, era apenas Rosalina — uma dessas criaturas que atravessam a memória da cidade sem deixar retrato, endereço ou sobrenome, mas cuja presença o tempo não consegue apagar.
Lembro-me de sua pele avermelhada, da estatura mediana, dos cabelos lisos, curtos e olhos castanhos. Costumava passar pela Rua Grande, quase sempre em direção a algum lugar que eu ignorava. Sua idade, calculo hoje, devia beirar os sessenta e cinco anos. Talvez fosse mais moça. As privações, os maus-tratos e os desencantos costumam envelhecer as pessoas antes do tempo.
Fora casada? Não sei.
Diziam que, em outros tempos, havia sido prostituta em algum cabaré. Mas o que realmente sabíamos de sua vida? Quase nada. Apenas repetíamos murmúrios antigos, desconhecendo as razões que a levaram a tal estágio.
Rosalina caminhava pelo meio da rua, junto ao canteiro, evitando as calçadas, como se o caminho reservado aos demais pedestres lhe tivesse sido negado algum dia. Andava em silêncio, indiferente ao movimento em redor. Parecia uma planta que nascera em terreno impróprio e, apesar de tudo, teimava em permanecer viva.
Talvez o silêncio fosse seu abrigo.
Nunca presenciei ninguém a insultar ou dirigir-lhe impropérios. Entretanto, quando falavam de Rosalina, quase sempre era para comparar outra mulher à conduta que lhe atribuíam. Seu nome transformara-se em advertência, censura e castigo. Condenavam-na mesmo quando ela não estava presente para se defender.
O que mais me impressionava era o fato de não olhar para ninguém. Seus olhos pareciam enxergar apenas o chão, como se ali procurassem alguma coisa perdida havia muitos anos.
Seria vergonha?
Não sei.
Talvez não fosse vergonha, mas cansaço. Talvez tivesse aprendido que levantar os olhos poderia significar encontrar o desprezo alheio. E, por isso, escolhera o chão, que nunca lhe perguntava de onde vinha, o que fizera ou por que chegara àquela condição.
Mesmo fisicamente abatida, posso assegurar, tantos anos depois, que Rosalina fora uma mulher bonita. Os vestígios dessa beleza ainda permaneciam em seu rosto, embora encobertos pelas marcas do abandono.
Se eu pudesse transportá-la ao passado, certamente encontraria uma moça de olhos claros, admirada por onde passasse, talvez cheia de sonhos e esperanças. Uma mulher que tivera seus dias de encanto e, quem sabe, também seus dias de glória.
Não sei o que a conduziu à prostituição — se é que verdadeiramente a ela se entregou. Poderia ter sido a pobreza, o abandono, a violência, uma promessa desfeita ou simplesmente a falta de escolha. Naquele tempo, à mulher pobre quase tudo era negado, inclusive o direito de recomeçar.
A beleza talvez lhe tenha aberto algumas portas, mas também pode tê-la empurrado para caminhos dos quais já não conseguiu retornar. A intolerância, o preconceito e os costumes da época juntaram-se no mesmo cadinho e produziram não uma mulher pecadora, mas um vulto rejeitado pela sociedade — e talvez até pelo clero, que deveria ter sido o primeiro a acolhê-la.
Contudo, Rosalina observava, em seu viver, as mais simples regras de dignidade. Não bebia, não fumava, não dizia impropérios nem blasfemava. Apenas caminhava. E em seu caminhar silencioso parecia carregar uma cruz que ninguém se oferecia para ajudar.
Talvez orasse em algum canto escondido de Aracati, num templo sem sino, sem altar, sem padres e sem fiéis.
E certamente Deus ouvia suas preces.
Talvez Rosalina nem lhe pedisse nada. Talvez não pedisse sequer perdão, porque somente ela e Deus conheciam a verdade de seus caminhos. É possível que, diante dEle, não tivesse do que se arrepender, mas apenas dores para entregar e lágrimas que nunca ousara derramar na presença dos homens.
Hoje, ao recordá-la, compreendo que não nos cabia julgá-la. É muito fácil condenar uma criatura quando desconhecemos as pedras sobre as quais ela precisou caminhar. Difícil é reconhecer, com humildade, que, submetidos às mesmas dores, talvez não tivéssemos sido melhores.
Rosalina não precisava do nosso julgamento.
Precisava de um gesto de ternura, de uma palavra amiga, de alguém que lhe oferecesse um lugar na calçada e lhe dissesse:
— Sente-se aqui, Rosalina. Descanse um pouco.
Mas ninguém disse.
E ela continuou pelo meio da rua, olhando para o chão, levando consigo uma história que Aracati jamais se preocupou em conhecer.
Não sei quando morreu, onde foi sepultada nem se alguém chorou sua partida. Sei apenas que Deus já a julgou — e que o julgamento divino certamente não se fez com a dureza, a soberba e o preconceito dos homens.
Talvez, no instante em que compareceu diante dEle, Rosalina tenha finalmente levantado os olhos.
E Deus, que conhece as dores escondidas e os caminhos impostos a cada criatura, pode tê-la recebido não como pecadora, mas como filha.
Quem sabe até como santa.
Uma santa sem altar, sem imagem e sem oração escrita.
Mas santa, pelo muito que sofreu, pelo silêncio com que suportou e pelo perdão que, talvez, tenha concedido a todos nós.

Fortaleza, 12 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes