A DOR QUE NINGUÉM VIU
A DOR QUE NINGUÉM VIU
Ainda me recordo do tempo em que beirava os oito anos. Morava, então, na esquina da Travessa Francisca Clotilde com a Rua Santos Dumont, em Aracati.
Quando não estava jogando bola de meia, sentava-me numa calçada alta, defronte à casa de dona Hermeta, a parteira. Quase sempre me fazia companhia Luís Lobo Ribeiro, filho de Lauro Dadora, menino da minha idade e parceiro de muitas horas desocupadas.
Daquele privilegiado posto de observação, acompanhávamos toda a movimentação da Rua Santos Dumont. Quem saía, quem chegava, quem passava e quem demorava mais do que o habitual. Nada escapava aos nossos olhos. Éramos uma espécie de fiscais do quarteirão, protótipos humanos das câmeras de segurança que, muitos anos depois, seriam instaladas nos postes.
Víamos tudo sem sermos verdadeiramente vistos.
Naquele tempo, menino e cachorro pouco representavam na consideração dos adultos. Quando muito, recebíamos um sorriso amarelo — e já era grande coisa. O mais comum era um olhar arregalado, disfarçado de censura, dirigido às travessuras em potencial que, segundo eles, já se encontravam em processo de gestação em nós.
Morava um homem chamado Minervino nas imediações. Era alto, forte, andava sempre de chapéu e carregava uma expressão permanentemente sisuda, como se a vida lhe houvesse servido um prato amargo e o obrigasse a engoli-lo, lentamente, todos os dias.
Tinha uma filha chamada Juju.
Parecia ter uns trinta e cinco anos, embora a idade das pessoas adultas fosse um mistério para dois meninos de oito. Para nós, qualquer pessoa com mais de vinte anos já se encontrava perigosamente próxima da velhice. E essa observação infantil, vejo agora, não estava de todo afastada da realidade, pois, naquele tempo, a existência humana muitas vezes mal ultrapassava a casa dos cinquenta anos.
Juju também era alta. Possuía as pernas muito cabeludas e os cabelos extremamente crespos e volumosos. Quando soprava o “Vento Aracati”, sua cabeleira se agitava e tombava para um dos lados, parecendo uma marizeira revolta — árvore frondosa e resistente do Nordeste — depois da passagem de uma forte ventania.
Era isso que nossos olhos infantis enxergavam.
Víamos os cabelos, as pernas, o jeito de andar e os gestos. Não víamos, entretanto, a pessoa que habitava aquele corpo.
Não sabíamos coisa alguma sobre seus sonhos, suas carências, seus medos ou as dores que escondia. Não sabíamos quantas vezes procurara um pouco de ternura e encontrara apenas silêncio. Não imaginávamos que, dentro daquela mulher, pudesse existir uma solidão tão funda que já não coubesse no peito.
A infância pode ser inocente, mas também consegue ser cruel justamente porque ainda não aprendeu a reconhecer o sofrimento alheio. Ri daquilo que não compreende. Diverte-se com o que parece estranho. Faz do diferente um brinquedo momentâneo, sem perceber que, por trás de uma aparência incomum, pode existir um coração pedindo socorro.
Juju também passava horas observando os transeuntes.
Talvez procurasse alguém.
Talvez esperasse alguma coisa que nunca chegava.
Ou talvez contemplasse a rua apenas para aliviar a solidão da casa — essa presença sem rosto que se senta ao nosso lado, ocupa os quartos vazios, acompanha as refeições silenciosas e, pouco a pouco, transforma a vida numa longa espera sem promessa de chegada.
Nunca ouvimos a sua voz.
Certa vez, porém, num raro momento em que sua dor pareceu transbordar, saiu-lhe da boca um queixume prolongado, entremeado de gemidos, como se falasse para si mesma ou para alguém que não estava ali:
— A solidão é pior do que a morte.
Naquele instante, não compreendemos a gravidade daquelas palavras.
Para duas crianças, solidão significava apenas não ter com quem brincar. Não sabíamos que ela também podia ser uma enfermidade da alma; uma chaga profunda, invisível e persistente, capaz de corroer lentamente o desejo de viver. Não sabíamos haver pessoas cercadas de casas, vozes e movimentos, mas abandonadas num lugar interior onde ninguém consegue chegar.
Somente aos sábados Juju saía.
Por volta das três horas da tarde, surgia toda empertigada e perfumada. Entrava na Travessa Francisca Clotilde, tomava a direção do beco de Rafael e seguia na direção das imediações da igreja Matriz, até desaparecer de nossas vistas.
Nesses dias, prendia os cabelos para protegê-los do vento e caminhava com uma elegância que despertava ainda mais a nossa curiosidade. Nós a acompanhávamos com os olhos até onde a rua permitia.
Talvez o sábado fosse o único dia em que a esperança entrava naquela casa.
Talvez, durante a semana inteira, Juju aguardasse aquelas poucas horas como quem espera uma fresta de luz numa habitação escura.
Regressava por volta das cinco da tarde.
O perfume já não a acompanhava. Trazia impregnado no corpo um forte cheiro de suor, denominado “pitiú” pelo pai de Luisinho. Os cabelos voltavam desalinhados, castigados pelo vento ou por alguma ação que desconhecíamos.
Nós, meninos, fazíamos comentários e inventávamos explicações.
Nada sabíamos, mas julgávamos saber tudo.
Em determinado sábado, Juju regressou mais tarde, quando já se aproximavam as sete horas. Vinha abatida, o semblante fechado e os passos sem a firmeza habitual. Havia alguma coisa diferente em seu modo de caminhar. Parecia trazer nos ombros um peso que não possuía nome.
Percebemos que algo havia acontecido, mas logo esquecemos.
Criança observa muito, porém nem sempre sabe interpretar aquilo que vê. Sua tristeza passou diante de nossos olhos, quase ao alcance de nossas mãos, e nós não tivemos idade nem sensibilidade para reconhecê-la.
Na segunda-feira seguinte, ouvimos gritos desesperados vindos da casa de Minervino.
Não eram gritos de discussão ou de raiva. Havia neles um desespero diferente, desses que fazem a vizinhança inteira interromper os afazeres e correr até as portas. Era como se a própria casa gritasse por socorro.
De repente, vimos uma pessoa em chamas sair em direção à rua.
Era Juju.
Num momento de extremo sofrimento, ela derramara álcool sobre o próprio corpo e riscara um fósforo.
Talvez não quisesse exatamente morrer. Talvez desejasse apenas destruir a dor que, dentro dela, se tornara maior do que sua capacidade de suportá-la. Talvez procurasse apagar, com o fogo, uma solidão que já lhe queimava a alma havia muito tempo.
Nunca saberemos.
Quando a fragilidade humana se encontra com o abandono, a desesperança e uma solidão que se tornou patológica, a pessoa pode ser conduzida a um território sombrio, onde a razão perde a voz, o futuro desaparece e nenhuma saída se mostra possível.
Juju não morreu imediatamente.
Foram três ou quatro dias de agonia.
Naquele tempo, os recursos médicos eram escassos e quase nada havia para aliviar o sofrimento de uma pessoa gravemente queimada. Envolveram seu corpo em folhas de bananeira, acreditando que o frescor das folhas pudesse diminuir a dor.
Era o remédio possível diante do impossível.
Durante aqueles dias, enquanto seu corpo agonizava, talvez ninguém soubesse que as queimaduras mais antigas não estavam na pele. Eram feridas, interiores, abertas havia muito tempo, que ninguém enxergara e para as quais jamais se encontrara tratamento.
Ao final daqueles dias, a morte veio encerrar seu sofrimento.
Fomos ver o corpo.
O que encontramos já não lembrava a mulher alta que, aos sábados, atravessava a rua perfumada, com os cabelos presos e alguma esperança no caminhar. Diante daquela cena, calaram-se os comentários e desapareceu nossa curiosidade infantil.
Restaram apenas o espanto e um medo que não sabíamos explicar.
Pela primeira vez, talvez, compreendemos que as pessoas podiam desaparecer para sempre.
Os comentários da vizinhança diziam que Juju havia tomado aquela decisão porque o namorado encerrara o relacionamento. Nunca soubemos se era verdade. Naquela época, como ainda hoje, as pessoas procuravam uma explicação simples para dores que quase nunca são simples.
Um amor desfeito pode ter sido o golpe final.
Mas ninguém sabia quantas tristezas ela já carregava. Ninguém sabia quantas noites chorara sozinha, quantas vezes se sentira desprezada ou quantas vezes pedira ajuda sem pronunciar uma única palavra.
Há pedidos de socorro que não produzem som.
Manifestam-se num olhar demorado, numa frase perdida, numa mudança de comportamento ou numa presença que, pouco a pouco, vai se apagando. Quase sempre, porém, estamos ocupados demais com nossos próprios ruídos para escutá-los.
Minervino ficou só.
Já não havia esposa, filha, filhos ou qualquer pessoa com quem dividir a casa e o peso dos dias. Aquele homem alto, forte e enchapelado, que nos parecia tão severo, revelou-se tão frágil quanto qualquer ser humano diante de uma perda que não podia reparar.
Talvez sua expressão sisuda escondesse dores antigas. Talvez ele também fosse, à sua maneira, um homem solitário. E talvez pai e filha vivessem sob o mesmo teto sem conseguirem alcançar um ao outro.
A solidão nem sempre é ausência de pessoas.
Às vezes, é ausência de encontro.
Pouco tempo depois, Minervino desapareceu de Aracati.
Foi embora sem despedidas, levando consigo a dor e, quem sabe, uma culpa que não lhe pertencia inteiramente. Nunca mais o vimos.
Tempos depois, soubemos o nome do namorado de Juju. Morava realmente nas proximidades da igreja Matriz, para onde ela se dirigia todos os sábados.
Meses após a morte dela, ele também pôs fim à própria vida, lançando-se nas águas profundas da Barreira Preta, no Rio Jaguaribe.
Assim terminou uma história que, aos olhos de dois meninos sentados numa calçada, começara apenas como curiosidade.
Duas vidas foram tragadas pelo desespero. Uma pelo fogo. Outra pelas águas.
E, entre ambas, permaneceu a solidão — silenciosa, impiedosa e invisível — como uma doença que ninguém diagnosticou, uma ferida que ninguém tratou e um grito que ninguém conseguiu ouvir a tempo.
Durante muitos anos, recordei aquela mulher por causa dos cabelos revoltos, das pernas cabeludas e do perfume que anunciava sua passagem.
Hoje, porém, lembro-me principalmente da tristeza que não percebemos.
É comum julgarmos as pessoas pelos sinais que carregam no corpo, pela maneira de vestir, pelo jeito de andar ou por aquilo que fazem de diferente. Raramente nos perguntamos qual sofrimento pode estar escondido por trás de uma aparência que nos causa estranheza.
A fragilidade humana não deve ser motivo de desprezo.
Todos possuímos um ponto de ruptura. A diferença é que alguns encontram uma mão antes de alcançá-lo, enquanto outros atravessam sozinhos a fronteira do desespero.
A solidão prolongada não é apenas tristeza. Pode tornar-se uma chaga profunda, capaz de adoecer os pensamentos, deformar a esperança e convencer a pessoa de que sua ausência será menos dolorosa do que sua presença.
Por isso, um gesto de atenção, uma palavra generosa ou a simples disposição de escutar podem representar muito mais do que imaginamos. Às vezes, aquele que permanece em silêncio não deseja ficar sozinho. Apenas já não sabe como pedir companhia.
Víamos tudo naquela Rua Santos Dumont.
Ou pensávamos ver.
Enxergávamos quem saía, quem chegava e quem passava. Percebíamos o perfume, os cabelos ao vento e os passos de quem regressava.
Mas não conseguíamos ver o que se passava na infeliz Juju.
Não vimos sua solidão.
Não vimos seu pedido de ajuda.
Não vimos a dor que, silenciosamente, já a consumia antes do fogo.
E essa continua sendo, ainda hoje, a nossa maior cegueira.
Fortaleza, 14 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes
Ainda me recordo do tempo em que beirava os oito anos. Morava, então, na esquina da Travessa Francisca Clotilde com a Rua Santos Dumont, em Aracati.
Quando não estava jogando bola de meia, sentava-me numa calçada alta, defronte à casa de dona Hermeta, a parteira. Quase sempre me fazia companhia Luís Lobo Ribeiro, filho de Lauro Dadora, menino da minha idade e parceiro de muitas horas desocupadas.
Daquele privilegiado posto de observação, acompanhávamos toda a movimentação da Rua Santos Dumont. Quem saía, quem chegava, quem passava e quem demorava mais do que o habitual. Nada escapava aos nossos olhos. Éramos uma espécie de fiscais do quarteirão, protótipos humanos das câmeras de segurança que, muitos anos depois, seriam instaladas nos postes.
Víamos tudo sem sermos verdadeiramente vistos.
Naquele tempo, menino e cachorro pouco representavam na consideração dos adultos. Quando muito, recebíamos um sorriso amarelo — e já era grande coisa. O mais comum era um olhar arregalado, disfarçado de censura, dirigido às travessuras em potencial que, segundo eles, já se encontravam em processo de gestação em nós.
Morava um homem chamado Minervino nas imediações. Era alto, forte, andava sempre de chapéu e carregava uma expressão permanentemente sisuda, como se a vida lhe houvesse servido um prato amargo e o obrigasse a engoli-lo, lentamente, todos os dias.
Tinha uma filha chamada Juju.
Parecia ter uns trinta e cinco anos, embora a idade das pessoas adultas fosse um mistério para dois meninos de oito. Para nós, qualquer pessoa com mais de vinte anos já se encontrava perigosamente próxima da velhice. E essa observação infantil, vejo agora, não estava de todo afastada da realidade, pois, naquele tempo, a existência humana muitas vezes mal ultrapassava a casa dos cinquenta anos.
Juju também era alta. Possuía as pernas muito cabeludas e os cabelos extremamente crespos e volumosos. Quando soprava o “Vento Aracati”, sua cabeleira se agitava e tombava para um dos lados, parecendo uma marizeira revolta — árvore frondosa e resistente do Nordeste — depois da passagem de uma forte ventania.
Era isso que nossos olhos infantis enxergavam.
Víamos os cabelos, as pernas, o jeito de andar e os gestos. Não víamos, entretanto, a pessoa que habitava aquele corpo.
Não sabíamos coisa alguma sobre seus sonhos, suas carências, seus medos ou as dores que escondia. Não sabíamos quantas vezes procurara um pouco de ternura e encontrara apenas silêncio. Não imaginávamos que, dentro daquela mulher, pudesse existir uma solidão tão funda que já não coubesse no peito.
A infância pode ser inocente, mas também consegue ser cruel justamente porque ainda não aprendeu a reconhecer o sofrimento alheio. Ri daquilo que não compreende. Diverte-se com o que parece estranho. Faz do diferente um brinquedo momentâneo, sem perceber que, por trás de uma aparência incomum, pode existir um coração pedindo socorro.
Juju também passava horas observando os transeuntes.
Talvez procurasse alguém.
Talvez esperasse alguma coisa que nunca chegava.
Ou talvez contemplasse a rua apenas para aliviar a solidão da casa — essa presença sem rosto que se senta ao nosso lado, ocupa os quartos vazios, acompanha as refeições silenciosas e, pouco a pouco, transforma a vida numa longa espera sem promessa de chegada.
Nunca ouvimos a sua voz.
Certa vez, porém, num raro momento em que sua dor pareceu transbordar, saiu-lhe da boca um queixume prolongado, entremeado de gemidos, como se falasse para si mesma ou para alguém que não estava ali:
— A solidão é pior do que a morte.
Naquele instante, não compreendemos a gravidade daquelas palavras.
Para duas crianças, solidão significava apenas não ter com quem brincar. Não sabíamos que ela também podia ser uma enfermidade da alma; uma chaga profunda, invisível e persistente, capaz de corroer lentamente o desejo de viver. Não sabíamos haver pessoas cercadas de casas, vozes e movimentos, mas abandonadas num lugar interior onde ninguém consegue chegar.
Somente aos sábados Juju saía.
Por volta das três horas da tarde, surgia toda empertigada e perfumada. Entrava na Travessa Francisca Clotilde, tomava a direção do beco de Rafael e seguia na direção das imediações da igreja Matriz, até desaparecer de nossas vistas.
Nesses dias, prendia os cabelos para protegê-los do vento e caminhava com uma elegância que despertava ainda mais a nossa curiosidade. Nós a acompanhávamos com os olhos até onde a rua permitia.
Talvez o sábado fosse o único dia em que a esperança entrava naquela casa.
Talvez, durante a semana inteira, Juju aguardasse aquelas poucas horas como quem espera uma fresta de luz numa habitação escura.
Regressava por volta das cinco da tarde.
O perfume já não a acompanhava. Trazia impregnado no corpo um forte cheiro de suor, denominado “pitiú” pelo pai de Luisinho. Os cabelos voltavam desalinhados, castigados pelo vento ou por alguma ação que desconhecíamos.
Nós, meninos, fazíamos comentários e inventávamos explicações.
Nada sabíamos, mas julgávamos saber tudo.
Em determinado sábado, Juju regressou mais tarde, quando já se aproximavam as sete horas. Vinha abatida, o semblante fechado e os passos sem a firmeza habitual. Havia alguma coisa diferente em seu modo de caminhar. Parecia trazer nos ombros um peso que não possuía nome.
Percebemos que algo havia acontecido, mas logo esquecemos.
Criança observa muito, porém nem sempre sabe interpretar aquilo que vê. Sua tristeza passou diante de nossos olhos, quase ao alcance de nossas mãos, e nós não tivemos idade nem sensibilidade para reconhecê-la.
Na segunda-feira seguinte, ouvimos gritos desesperados vindos da casa de Minervino.
Não eram gritos de discussão ou de raiva. Havia neles um desespero diferente, desses que fazem a vizinhança inteira interromper os afazeres e correr até as portas. Era como se a própria casa gritasse por socorro.
De repente, vimos uma pessoa em chamas sair em direção à rua.
Era Juju.
Num momento de extremo sofrimento, ela derramara álcool sobre o próprio corpo e riscara um fósforo.
Talvez não quisesse exatamente morrer. Talvez desejasse apenas destruir a dor que, dentro dela, se tornara maior do que sua capacidade de suportá-la. Talvez procurasse apagar, com o fogo, uma solidão que já lhe queimava a alma havia muito tempo.
Nunca saberemos.
Quando a fragilidade humana se encontra com o abandono, a desesperança e uma solidão que se tornou patológica, a pessoa pode ser conduzida a um território sombrio, onde a razão perde a voz, o futuro desaparece e nenhuma saída se mostra possível.
Juju não morreu imediatamente.
Foram três ou quatro dias de agonia.
Naquele tempo, os recursos médicos eram escassos e quase nada havia para aliviar o sofrimento de uma pessoa gravemente queimada. Envolveram seu corpo em folhas de bananeira, acreditando que o frescor das folhas pudesse diminuir a dor.
Era o remédio possível diante do impossível.
Durante aqueles dias, enquanto seu corpo agonizava, talvez ninguém soubesse que as queimaduras mais antigas não estavam na pele. Eram feridas, interiores, abertas havia muito tempo, que ninguém enxergara e para as quais jamais se encontrara tratamento.
Ao final daqueles dias, a morte veio encerrar seu sofrimento.
Fomos ver o corpo.
O que encontramos já não lembrava a mulher alta que, aos sábados, atravessava a rua perfumada, com os cabelos presos e alguma esperança no caminhar. Diante daquela cena, calaram-se os comentários e desapareceu nossa curiosidade infantil.
Restaram apenas o espanto e um medo que não sabíamos explicar.
Pela primeira vez, talvez, compreendemos que as pessoas podiam desaparecer para sempre.
Os comentários da vizinhança diziam que Juju havia tomado aquela decisão porque o namorado encerrara o relacionamento. Nunca soubemos se era verdade. Naquela época, como ainda hoje, as pessoas procuravam uma explicação simples para dores que quase nunca são simples.
Um amor desfeito pode ter sido o golpe final.
Mas ninguém sabia quantas tristezas ela já carregava. Ninguém sabia quantas noites chorara sozinha, quantas vezes se sentira desprezada ou quantas vezes pedira ajuda sem pronunciar uma única palavra.
Há pedidos de socorro que não produzem som.
Manifestam-se num olhar demorado, numa frase perdida, numa mudança de comportamento ou numa presença que, pouco a pouco, vai se apagando. Quase sempre, porém, estamos ocupados demais com nossos próprios ruídos para escutá-los.
Minervino ficou só.
Já não havia esposa, filha, filhos ou qualquer pessoa com quem dividir a casa e o peso dos dias. Aquele homem alto, forte e enchapelado, que nos parecia tão severo, revelou-se tão frágil quanto qualquer ser humano diante de uma perda que não podia reparar.
Talvez sua expressão sisuda escondesse dores antigas. Talvez ele também fosse, à sua maneira, um homem solitário. E talvez pai e filha vivessem sob o mesmo teto sem conseguirem alcançar um ao outro.
A solidão nem sempre é ausência de pessoas.
Às vezes, é ausência de encontro.
Pouco tempo depois, Minervino desapareceu de Aracati.
Foi embora sem despedidas, levando consigo a dor e, quem sabe, uma culpa que não lhe pertencia inteiramente. Nunca mais o vimos.
Tempos depois, soubemos o nome do namorado de Juju. Morava realmente nas proximidades da igreja Matriz, para onde ela se dirigia todos os sábados.
Meses após a morte dela, ele também pôs fim à própria vida, lançando-se nas águas profundas da Barreira Preta, no Rio Jaguaribe.
Assim terminou uma história que, aos olhos de dois meninos sentados numa calçada, começara apenas como curiosidade.
Duas vidas foram tragadas pelo desespero. Uma pelo fogo. Outra pelas águas.
E, entre ambas, permaneceu a solidão — silenciosa, impiedosa e invisível — como uma doença que ninguém diagnosticou, uma ferida que ninguém tratou e um grito que ninguém conseguiu ouvir a tempo.
Durante muitos anos, recordei aquela mulher por causa dos cabelos revoltos, das pernas cabeludas e do perfume que anunciava sua passagem.
Hoje, porém, lembro-me principalmente da tristeza que não percebemos.
É comum julgarmos as pessoas pelos sinais que carregam no corpo, pela maneira de vestir, pelo jeito de andar ou por aquilo que fazem de diferente. Raramente nos perguntamos qual sofrimento pode estar escondido por trás de uma aparência que nos causa estranheza.
A fragilidade humana não deve ser motivo de desprezo.
Todos possuímos um ponto de ruptura. A diferença é que alguns encontram uma mão antes de alcançá-lo, enquanto outros atravessam sozinhos a fronteira do desespero.
A solidão prolongada não é apenas tristeza. Pode tornar-se uma chaga profunda, capaz de adoecer os pensamentos, deformar a esperança e convencer a pessoa de que sua ausência será menos dolorosa do que sua presença.
Por isso, um gesto de atenção, uma palavra generosa ou a simples disposição de escutar podem representar muito mais do que imaginamos. Às vezes, aquele que permanece em silêncio não deseja ficar sozinho. Apenas já não sabe como pedir companhia.
Víamos tudo naquela Rua Santos Dumont.
Ou pensávamos ver.
Enxergávamos quem saía, quem chegava e quem passava. Percebíamos o perfume, os cabelos ao vento e os passos de quem regressava.
Mas não conseguíamos ver o que se passava na infeliz Juju.
Não vimos sua solidão.
Não vimos seu pedido de ajuda.
Não vimos a dor que, silenciosamente, já a consumia antes do fogo.
E essa continua sendo, ainda hoje, a nossa maior cegueira.
Fortaleza, 14 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes