MALAGUETA DO DESERTO
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O ELEITOR QUE NUNCA PERDEU UMA ELEIÇÃO

O ELEITOR QUE NUNCA PERDEU UMA ELEIÇÃO

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O ELEITOR QUE NUNCA PERDEU UMA ELEIÇÃO

Havia em Aracati um cidadão chamado Geraldo que se orgulhava de possuir uma qualidade raríssima entre os eleitores:
— Nunca perdi uma eleição!
O segredo era simples: antes da eleição, apoiava todos, disfarçadamente; depois da apuração, escolhia o vencedor.
Diante dos governistas, declarava:
— Sempre estive com o governo. Não sou homem de aventuras.
Entre os oposicionistas, mudava discretamente o tom:
— Aracati precisa de sangue novo. Ninguém aguenta mais os mesmos!
Na Praça da Coluna, acompanhava a opinião dos aposentados. Na igreja, depois da missa, dizia apoiar o homem temente a Deus. No cabaré, altas horas da noite, garantia que votaria no candidato mais liberal.
Geraldo tinha dois filhos. O mais velho fora batizado tendo como padrinho o doutor Abelardo Costa Lima. O segundo recebera como padrinho o doutor Ernesto Valente.
Quando lhe perguntavam em quem votaria, coçava a cabeça, olhava para os lados e devolvia a pergunta:
— E você? Vai votar em quem?
— Agora posso confessar: também estou com ele!
Em outras ocasiões, dizia que ainda estava “estudando as propostas”. Havia quem afirmasse que ele costumava dizer:
— Os dois são excelentes. Uma pena que só um possa ganhar.
O período eleitoral, entretanto, era para Geraldo uma época de grande inquietação. Vereadores, cabos eleitorais e candidatos apareciam em sua casa para convidá-lo aos comícios. Ele aceitava todos os convites, mas tomava cuidados para não ser reconhecido pelos partidários adversários.
Para assistir a um comício do doutor Ernesto, colocava um chapéu de palha enorme, enterrado até as sobrancelhas. No palanque do doutor Abelardo, aparecia de óculos escuros, mesmo que o comício começasse depois das sete da noite.
Geraldo possuía também duas camisas de campanha. Uma tinha as cores do grupo de Abelardo; a outra, as de Ernesto.
Também mantinha dois retratos em casa. O de Abelardo ficava pendurado na sala quando os partidários de Abelardo anunciavam visita. O de Ernesto ocupava o mesmo prego quando chegavam os homens de Ernesto.
Nos dias de comício, recebia dos dois lados algum agrado. Geraldo aceitava tudo com a consciência tranquila:
— Recusar é falta de educação.
Nem a mulher nem os filhos conheciam sua verdadeira preferência política. Na manhã da eleição, ele saía de casa com os bolsos cheios de santinhos dos dois candidatos. Não posso adivinhar o que vai acontecer, dizia a seus botões.
Terminada a votação, recolhia-se em casa e acompanhava a apuração com a seriedade de um general esperando notícias da guerra. Não comemorava os primeiros resultados. Dizia ser preciso aguardar “a tendência das urnas”. Quando alguém lhe perguntava por que estava tão calado, respondia:
— A eleição só termina quando acaba.
Confirmado o resultado, tomava banho, passava brilhantina no cabelo, vestia a camisa do vencedor, e saía pelas principais ruas de Aracati.
Passava lentamente diante da casa do futuro prefeito, cumprimentando os presentes, abraçando os correligionários e gritando:
— Eu sabia desde o começo! Esse sempre foi o meu candidato!
Se encontrasse algum partidário derrotado, consolava-o:
— Política é assim mesmo. Mas seu candidato também é um grande homem. Perdeu por falta de sorte.
A estratégia produziu alguns resultados.
Quando doutor Abelardo Costa Lima venceu a eleição, Geraldo apresentou-lhe o filho mais velho, seu afilhado.
— Compadre, este menino trabalhou por sua vitória desde o primeiro dia.
O rapaz foi colocado na Prefeitura como prova de sua fidelidade histórica:
— Doutor Abelardo sempre soube que podia confiar em mim.
O segundo filho, afilhado do doutor Ernesto Valente, não teve a mesma sorte. Durante toda a vida, esperou que o padrinho vencesse uma eleição e também lhe arranjasse um lugar na Prefeitura.
A cada campanha, Geraldo animava o rapaz:
— Desta vez, seu padrinho ganha. Já conversei com gente importante.
O filho envelheceu esperando. Doutor Ernesto disputou outras eleições, reuniu correligionários, fez discursos, recebeu abraços e promessas, mas nunca chegou à Prefeitura.
O rapaz passou a juventude aguardando a nomeação. Depois, esperou durante a maturidade. Por fim, já de cabelos brancos, ainda perguntava ao pai:
— E o meu emprego?
Geraldo respondia:
— Tenha paciência. Política é uma roda. Um dia ela gira. A roda girou muitas vezes, mas nunca parou no lugar do doutor Ernesto.
Certa vez, perguntaram a Geraldo por que ele não declarava seu voto antes da apuração.
Ele ajeitou o chapéu, estufou o peito e respondeu:
— Sou abelardista desde que me entendo de gente. Te alui!
Após uma breve pausa, complementou:
— Na democracia, alguns escolhem os candidatos. Outros, mais prudentes, esperam o resultado para escolher o próprio futuro.
Foi assim que Geraldo atravessou a vida sem perder uma única eleição.
Perdeu apenas o emprego do segundo filho.

Fortaleza, 17 de agosto de 2026
José Nilton Fernandes