O HOMEM QUE SAIU DAS PÁGINAS
Não sei dizer como cheguei àquela casa.
Ela se parecia muito com a residência onde meu avô Manuel vivera seus últimos anos. As janelas, o alpendre, a disposição dos cômodos — tudo me era familiar. O que não reconhecia era a paisagem ao redor.
A terra estava rachada. Não havia árvores, apenas troncos secos e sombras retorcidas. O vento levantava redemoinhos de poeira sobre um cenário que parecia abandonado pelo próprio tempo.
Entrei.
Ao final de um quarto escuro, encontrei um pequeno aposento vazio. Sobre uma mesa repousava um embrulho envolto em tecido azul-escuro.
Dentro dele havia um livro. Capa amarela. Letras azuis. Nenhuma editora. Nenhuma data. Nenhuma informação. Apenas um nome:
A. Ferrabara
E o título:
DEDALOT
Na folha de rosto, uma única frase: “Primeira e única edição.”
Levei o livro para casa.
Nos dias seguintes, procurei referências sobre a obra e seu autor. Não encontrei absolutamente nada. Era como se jamais tivessem existido.
Na terceira noite, ouvi uma voz.
Calma!
Pronunciou apenas duas palavras:
— Leia. Logo.
Na manhã seguinte, abri o livro. A primeira frase me fez estremecer:
“Esta obra foi escrita para ti. Se estás lendo estas palavras, não podes mais interromper a leitura.”
Continuei.
A narrativa falava de um homem chamado José. Meu nome. Mencionava meu avô Manuel. Minha vida. Meus pensamentos. Meus medos.
Então, compreendi que não estava lendo uma história. A história estava lendo a mim.
As páginas contavam a existência de um antigo líder chamado Dedalot, sacerdote e chefe de um povo esquecido. Seu único filho chamava-se Xestro. Frágil no corpo e amargo na alma. Xestro invejava um jovem chamado José.
Não por riquezas. Não por poder.
Mas por que José possuía aquilo que ele jamais conseguira conquistar: o respeito espontâneo das pessoas.
O ciúme transformou-se em ódio. O ódio transformou-se em crime. Numa passagem entre montanhas, Xestro assassinou José.
E ali deveria terminar a história. Mas não terminou.
Segundo o livro, certas dívidas não desaparecem com a morte.
Século após século, ambos renasciam. Mudavam os nomes. Mudavam os rostos. Mudavam os países. Mas a antiga ferida permanecia aberta.
José procurava seu assassino. Xestro fugia sem saber de quê. O ódio mantinha ambos os acorrentados através dos milênios. Até que cheguei ao trecho mais perturbador. O livro afirmava que ambos estavam vivos.
Viviam no Ceará. Trabalhavam juntos durante boa parte da vida. Eram homens respeitados. Tinham famílias. Filhos. Netos.
Mas continuavam ligados pela mesma corrente invisível.
Os sonhos começaram primeiro. Depois vieram as antipatias sem motivo. As irritações repentinas. Os ressentimentos inexplicáveis.
Nenhum dos dois compreendia a origem daquele conflito.
Apenas sentiam. Como se alguma lembrança esquecida tentasse emergir das profundezas da alma.
Continuei lendo.
A página seguinte revelou algo inesperado. Xestro não era mais o homem cruel de outrora. O tempo o havia transformado. Tornou-se um pai dedicado, embora com resquícios de ambição. Um esposo correto. Um trabalhador honesto.
Carregava culpas que não compreendia e sofrimentos cuja origem desconhecia.
Foi então que percebi algo que jamais havia percebido. Durante todos aqueles séculos, eu acreditara perseguir um inimigo. Na verdade, era eu quem permanecia prisioneiro dele. A página começou a se escrever sozinha. As letras surgiam diante dos meus olhos.
Uma frase apareceu:
“Xestro matou teu corpo uma única vez. Tu permitiste que ele aprisionasse tua alma por milhares de anos.”
Senti um peso imenso abandonar meu peito. Compreendi que a vingança jamais encerraria aquela história. Toda vez que eu desejasse puni-lo, a corrente continuaria existindo. Toda vez que o odiasse, estaria alimentando a própria prisão.
Então surgiu a última página. Branca. No centro dela apareceu lentamente uma única frase:
“Desejas justiça ou desejas liberdade?”
Fechei os olhos. Pela primeira vez, não pensei em castigo. Não pensei em reparação. Não pensei em vingança. Pensei apenas em paz.
Quando voltei a olhar, novas palavras haviam surgido:
“A dívida está paga.”
Abaixo delas:
“Não porque foi cobrada.”
E, por fim:
“Mas por que foi perdoada”
Nesse instante, o livro começou a desaparecer. As letras apagaram-se. As páginas tornaram-se vazias. A capa dissolveu-se como poeira levada pelo vento.
Acordei sobressaltado. Estava em meu quarto. Não havia livro. Não havia casa. Não havia Dedalot.
Durante alguns segundos imaginei que tudo não passara de um sonho.
Talvez fosse. Talvez não.
Mas uma certeza permanecia. Existem inimigos que nos ferem uma vez. E existem ressentimentos que nos ferem durante toda a vida.
O perdão não muda o passado. Não absolve necessariamente quem errou. Mas rompe as correntes invisíveis que nos mantêm presos ao sofrimento.
Naquela manhã, compreendi que algumas batalhas não são vencidas quando derrotamos o adversário.
São vencidas quando não há mais ressentimento.
E, pela primeira vez em muitos anos, senti-me verdadeiramente livre.
Ela se parecia muito com a residência onde meu avô Manuel vivera seus últimos anos. As janelas, o alpendre, a disposição dos cômodos — tudo me era familiar. O que não reconhecia era a paisagem ao redor.
A terra estava rachada. Não havia árvores, apenas troncos secos e sombras retorcidas. O vento levantava redemoinhos de poeira sobre um cenário que parecia abandonado pelo próprio tempo.
Entrei.
Ao final de um quarto escuro, encontrei um pequeno aposento vazio. Sobre uma mesa repousava um embrulho envolto em tecido azul-escuro.
Dentro dele havia um livro. Capa amarela. Letras azuis. Nenhuma editora. Nenhuma data. Nenhuma informação. Apenas um nome:
A. Ferrabara
E o título:
DEDALOT
Na folha de rosto, uma única frase: “Primeira e única edição.”
Levei o livro para casa.
Nos dias seguintes, procurei referências sobre a obra e seu autor. Não encontrei absolutamente nada. Era como se jamais tivessem existido.
Na terceira noite, ouvi uma voz.
Calma!
Pronunciou apenas duas palavras:
— Leia. Logo.
Na manhã seguinte, abri o livro. A primeira frase me fez estremecer:
“Esta obra foi escrita para ti. Se estás lendo estas palavras, não podes mais interromper a leitura.”
Continuei.
A narrativa falava de um homem chamado José. Meu nome. Mencionava meu avô Manuel. Minha vida. Meus pensamentos. Meus medos.
Então, compreendi que não estava lendo uma história. A história estava lendo a mim.
As páginas contavam a existência de um antigo líder chamado Dedalot, sacerdote e chefe de um povo esquecido. Seu único filho chamava-se Xestro. Frágil no corpo e amargo na alma. Xestro invejava um jovem chamado José.
Não por riquezas. Não por poder.
Mas por que José possuía aquilo que ele jamais conseguira conquistar: o respeito espontâneo das pessoas.
O ciúme transformou-se em ódio. O ódio transformou-se em crime. Numa passagem entre montanhas, Xestro assassinou José.
E ali deveria terminar a história. Mas não terminou.
Segundo o livro, certas dívidas não desaparecem com a morte.
Século após século, ambos renasciam. Mudavam os nomes. Mudavam os rostos. Mudavam os países. Mas a antiga ferida permanecia aberta.
José procurava seu assassino. Xestro fugia sem saber de quê. O ódio mantinha ambos os acorrentados através dos milênios. Até que cheguei ao trecho mais perturbador. O livro afirmava que ambos estavam vivos.
Viviam no Ceará. Trabalhavam juntos durante boa parte da vida. Eram homens respeitados. Tinham famílias. Filhos. Netos.
Mas continuavam ligados pela mesma corrente invisível.
Os sonhos começaram primeiro. Depois vieram as antipatias sem motivo. As irritações repentinas. Os ressentimentos inexplicáveis.
Nenhum dos dois compreendia a origem daquele conflito.
Apenas sentiam. Como se alguma lembrança esquecida tentasse emergir das profundezas da alma.
Continuei lendo.
A página seguinte revelou algo inesperado. Xestro não era mais o homem cruel de outrora. O tempo o havia transformado. Tornou-se um pai dedicado, embora com resquícios de ambição. Um esposo correto. Um trabalhador honesto.
Carregava culpas que não compreendia e sofrimentos cuja origem desconhecia.
Foi então que percebi algo que jamais havia percebido. Durante todos aqueles séculos, eu acreditara perseguir um inimigo. Na verdade, era eu quem permanecia prisioneiro dele. A página começou a se escrever sozinha. As letras surgiam diante dos meus olhos.
Uma frase apareceu:
“Xestro matou teu corpo uma única vez. Tu permitiste que ele aprisionasse tua alma por milhares de anos.”
Senti um peso imenso abandonar meu peito. Compreendi que a vingança jamais encerraria aquela história. Toda vez que eu desejasse puni-lo, a corrente continuaria existindo. Toda vez que o odiasse, estaria alimentando a própria prisão.
Então surgiu a última página. Branca. No centro dela apareceu lentamente uma única frase:
“Desejas justiça ou desejas liberdade?”
Fechei os olhos. Pela primeira vez, não pensei em castigo. Não pensei em reparação. Não pensei em vingança. Pensei apenas em paz.
Quando voltei a olhar, novas palavras haviam surgido:
“A dívida está paga.”
Abaixo delas:
“Não porque foi cobrada.”
E, por fim:
“Mas por que foi perdoada”
Nesse instante, o livro começou a desaparecer. As letras apagaram-se. As páginas tornaram-se vazias. A capa dissolveu-se como poeira levada pelo vento.
Acordei sobressaltado. Estava em meu quarto. Não havia livro. Não havia casa. Não havia Dedalot.
Durante alguns segundos imaginei que tudo não passara de um sonho.
Talvez fosse. Talvez não.
Mas uma certeza permanecia. Existem inimigos que nos ferem uma vez. E existem ressentimentos que nos ferem durante toda a vida.
O perdão não muda o passado. Não absolve necessariamente quem errou. Mas rompe as correntes invisíveis que nos mantêm presos ao sofrimento.
Naquela manhã, compreendi que algumas batalhas não são vencidas quando derrotamos o adversário.
São vencidas quando não há mais ressentimento.
E, pela primeira vez em muitos anos, senti-me verdadeiramente livre.