A CRIANÇA QUE EU FUI VEIO VISITAR O VELHO QUE ME TORNEI
A CRIANÇA QUE EU FUI VEIO VISITAR O VELHO QUE ME TORNEI
Naquela tarde, encontrei um menino sentado na calçada da Rua Santos Dumont, na mesma casa onde eu vivi minha felicidade plena.
Vestia bermuda e trazia nos joelhos as marcas de quem passara o dia correndo, jogando bola de meia e inventando aventuras. Embora estivesse de costas, reconheci-o imediatamente. Há pessoas que o tempo modifica; outras ele apenas esconde dentro de nós.
Aproximei-me devagar.
— Está esperando alguém? — perguntei.
O menino voltou-se e me olhou demoradamente. Tinha os meus olhos, o meu cabelo de antigamente e aquela despreocupação que perdi não sei onde.
— Estou esperando você — respondeu.
Sentei-me ao seu lado. Durante alguns instantes, nenhum dos dois falou. Ele olhava para mim contemplando e admirado com o meu rosto envelhecido.
— Então foi nisso que eu me transformei?
A pergunta não trazia maldade. Era apenas a curiosidade de uma criança diante do próprio futuro.
— Foi — respondi — Mas não se assuste. Essas rugas demoraram muitos anos para chegar. São feitas de suor, incompreensão e desenganos. Uma vez misturados resultou nisso que está vendo.
Ele examinou minhas mãos, as rugas do rosto e a lentidão dos meus movimentos.
— E por que você parece cansado?
— Porque viver também cansa, falei.
— Brincar cansa, e nem por isso eu fico triste, disse o menino.
Sorri. Aquele menino começava a me ensinar aquilo que eu passara a vida esquecendo.
Ele quis saber se eu havia estudado, trabalhado, casado e tido filhos. Contei-lhe algumas coisas. Falei do trabalho, dos caminhos percorridos, dos amigos que fiz e da família que construí. Não mencionei todas as perdas. Uma criança não precisa conhecer antecipadamente as dores que a aguardam.
— E nosso pai e nossa mãe? — perguntou.
Olhei para o fim da rua, procurando uma resposta entre as sombras da tarde.
— Hoje eles moram nas minhas lembranças.
O menino baixou a cabeça. Depois de algum tempo, perguntou:
— É longe?
— Às vezes, não. Basta fechar os olhos.
Ele fechou os seus. Talvez tenha ouvido a voz de nossa mãe chamando para o banho ou avistado nosso pai chegando em casa. Eu também fechei os olhos e, por um instante, todos estavam vivos novamente.
— Você ainda se lembra dos nossos amigos?
— De quase todos. Alguns se foram. Outros envelheceram. Há também aqueles dos quais nunca mais tive notícias.
— E você voltou muitas vezes a esta calçada?
— Voltei em pensamento. O corpo foi morar longe, mas uma parte de mim nunca saiu daqui.
Ele pareceu satisfeito. Apanhou uma pequena pedra e lançou-a no meio da rua.
— Você ficou importante?
A pergunta me surpreendeu.
— Não sei. Por quê?
— Porque os adultos vivem dizendo que, quando eu crescer, preciso ser alguém importante.
Pensei em tudo o que perseguimos durante a vida: emprego, reconhecimento, dinheiro, respeito. Depois compreendemos que a importância verdadeira talvez seja apenas a de deixar saudade no coração de alguém.
— Não se preocupe em ser importante — aconselhei. — Procure ser bom. É mais difícil e vale muito mais.
A noite começava a descer sobre a Rua Santos Dumont. De uma casa próxima veio uma voz de mulher:
— Nilton! Está na hora de entrar!
O menino levantou-se imediatamente.
— É nossa mãe — disse ele, sorrindo.
Também me levantei, mas minhas pernas já não possuíam a ligeireza das dele.
Antes de correr, perguntou:
— Você foi feliz?
Olhei para aquele menino que ainda tinha todos os seus mortos vivos, todos os seus caminhos por percorrer e todas as suas despedidas por conhecer.
— Fui. Fui mais ou menos...
Ele abriu um sorriso, acenou e saiu correndo. Pouco depois, desapareceu na mesma casa onde ficaram guardados os meus primeiros anos.
Permaneci sozinho na calçada.
Não sei se voltei ao passado ou se o passado veio buscar-me. Sei apenas que, naquela tarde, a criança que eu fui encontrou o velho que me tornei.
Fortaleza, 02 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes
Naquela tarde, encontrei um menino sentado na calçada da Rua Santos Dumont, na mesma casa onde eu vivi minha felicidade plena.
Vestia bermuda e trazia nos joelhos as marcas de quem passara o dia correndo, jogando bola de meia e inventando aventuras. Embora estivesse de costas, reconheci-o imediatamente. Há pessoas que o tempo modifica; outras ele apenas esconde dentro de nós.
Aproximei-me devagar.
— Está esperando alguém? — perguntei.
O menino voltou-se e me olhou demoradamente. Tinha os meus olhos, o meu cabelo de antigamente e aquela despreocupação que perdi não sei onde.
— Estou esperando você — respondeu.
Sentei-me ao seu lado. Durante alguns instantes, nenhum dos dois falou. Ele olhava para mim contemplando e admirado com o meu rosto envelhecido.
— Então foi nisso que eu me transformei?
A pergunta não trazia maldade. Era apenas a curiosidade de uma criança diante do próprio futuro.
— Foi — respondi — Mas não se assuste. Essas rugas demoraram muitos anos para chegar. São feitas de suor, incompreensão e desenganos. Uma vez misturados resultou nisso que está vendo.
Ele examinou minhas mãos, as rugas do rosto e a lentidão dos meus movimentos.
— E por que você parece cansado?
— Porque viver também cansa, falei.
— Brincar cansa, e nem por isso eu fico triste, disse o menino.
Sorri. Aquele menino começava a me ensinar aquilo que eu passara a vida esquecendo.
Ele quis saber se eu havia estudado, trabalhado, casado e tido filhos. Contei-lhe algumas coisas. Falei do trabalho, dos caminhos percorridos, dos amigos que fiz e da família que construí. Não mencionei todas as perdas. Uma criança não precisa conhecer antecipadamente as dores que a aguardam.
— E nosso pai e nossa mãe? — perguntou.
Olhei para o fim da rua, procurando uma resposta entre as sombras da tarde.
— Hoje eles moram nas minhas lembranças.
O menino baixou a cabeça. Depois de algum tempo, perguntou:
— É longe?
— Às vezes, não. Basta fechar os olhos.
Ele fechou os seus. Talvez tenha ouvido a voz de nossa mãe chamando para o banho ou avistado nosso pai chegando em casa. Eu também fechei os olhos e, por um instante, todos estavam vivos novamente.
— Você ainda se lembra dos nossos amigos?
— De quase todos. Alguns se foram. Outros envelheceram. Há também aqueles dos quais nunca mais tive notícias.
— E você voltou muitas vezes a esta calçada?
— Voltei em pensamento. O corpo foi morar longe, mas uma parte de mim nunca saiu daqui.
Ele pareceu satisfeito. Apanhou uma pequena pedra e lançou-a no meio da rua.
— Você ficou importante?
A pergunta me surpreendeu.
— Não sei. Por quê?
— Porque os adultos vivem dizendo que, quando eu crescer, preciso ser alguém importante.
Pensei em tudo o que perseguimos durante a vida: emprego, reconhecimento, dinheiro, respeito. Depois compreendemos que a importância verdadeira talvez seja apenas a de deixar saudade no coração de alguém.
— Não se preocupe em ser importante — aconselhei. — Procure ser bom. É mais difícil e vale muito mais.
A noite começava a descer sobre a Rua Santos Dumont. De uma casa próxima veio uma voz de mulher:
— Nilton! Está na hora de entrar!
O menino levantou-se imediatamente.
— É nossa mãe — disse ele, sorrindo.
Também me levantei, mas minhas pernas já não possuíam a ligeireza das dele.
Antes de correr, perguntou:
— Você foi feliz?
Olhei para aquele menino que ainda tinha todos os seus mortos vivos, todos os seus caminhos por percorrer e todas as suas despedidas por conhecer.
— Fui. Fui mais ou menos...
Ele abriu um sorriso, acenou e saiu correndo. Pouco depois, desapareceu na mesma casa onde ficaram guardados os meus primeiros anos.
Permaneci sozinho na calçada.
Não sei se voltei ao passado ou se o passado veio buscar-me. Sei apenas que, naquela tarde, a criança que eu fui encontrou o velho que me tornei.
Fortaleza, 02 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes