MALAGUETA DO DESERTO
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TIÃO VENTINHA, O ENGRAXATE CRONISTA

TIÃO VENTINHA, O ENGRAXATE CRONISTA

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TIÃO VENTINHA, O ENGRAXATE CRONISTA

Nos anos sessenta, a Praça do Mercado Público de Aracati era uma verdadeira fábrica de profissões. Ali se reuniam homens que, em busca do sustento de cada dia, vendiam frutas, carregavam volumes, consertavam objetos, ofereciam pequenos serviços ou simplesmente aguardavam algum trabalho.
Quase todos, porém, exerciam uma segunda atividade, sem remuneração e sem registro: observavam a vida alheia. Sabiam quem chegava, quem partia, quem comprava fiado, quem entrava no cinema acompanhado e quem mudava de calçada para não encontrar um credor.
Nesse ofício que metia medo, uma simples suspeita podia transformar-se em certeza antes do meio-dia. Assim nasciam os fuxicos, fabricados por cronistas anônimos e logo incorporados ao cotidiano da cidade.
Entretanto, o verdadeiro cronista da praça trabalhava rente ao chão.
Chamava-se Tião Ventinha, engraxate de profissão. Era de pequena estatura, “um anão que não deu certo”, como diziam naquele tempo, sem muita delicadeza. Tinha pernas curtas e o tronco desproporcional, porém compacto, que o fazia parecer fundido à própria caixa de engraxar.
Seu rosto, de pele sebenta, brilhava sob o sol do meio-dia e era coroado por uma cabeleira crespa. No centro de tudo, destacavam-se as famosas narinas largas — as “ventinhas” —, que se expandiam ao ritmo da respiração apressada e do temperamento expansivo.
Vestia a farda simples de quem fizera da calçada o seu escritório: camisa cinzenta de mangas curtas, desbotada pelo uso e pelas incontáveis lavagens, e calças de algodão grosseiro, num azul igualmente vencido pelo tempo. Ao lado da caixa, permanecia a inseparável carteira de cigarros Continental, sem filtro.
Enquanto suas mãos calejadas e tingidas de graxa faziam o pano de feltro estalar nos sapatos dos clientes, seus olhos atentos não perdiam um só movimento da praça. Tião sabia das dívidas na venda da esquina, dos namoros escondidos, das intrigas políticas e até de quem se casara às pressas para encobrir uma gravidez.
Contava tudo com humor brincalhão e gírias da época, arrancando gargalhadas até dos clientes mais severos. Por isso, ganhou a fama de fofoqueiro oficial da cidade.
Tião Ventinha era o Serasa de Aracati décadas antes de esse nome tornar-se conhecido. Sabia quem tinha dinheiro no banco, quem devia ao banco e, o que era ainda pior, se a dívida estava atrasada.
Mas havia nele uma qualidade que poucos percebiam. Tião lia as pessoas não apenas pelo que diziam, mas também pela maneira como caminhavam e gastavam os saltos dos sapatos. Era o psicólogo amador da praça. Entre uma piada e outra, oferecia conselhos certeiros, protegia os humilhados e, muitas vezes, calava justamente aquilo que poderia destruir uma família.
Após sua morte, disseram que a praça ficou muda. Acabaram os fuxicos, as pilhérias e as notícias sobre quem se casava grávida.
Dias mais tarde, encontraram num velho baú um caderno de capa marrom, repleto de histórias nunca contadas. Muitos temeram que ali estivessem registrados os segredos vergonhosos da cidade.
Não estavam.
Tião escrevera somente as boas ações que aquelas pessoas haviam praticado às escondidas: a esmola dada sem testemunhas, o remédio comprado para um desconhecido, a dívida perdoada, a comida deixada discretamente à porta de uma família necessitada.
Foi então que Aracati conheceu o verdadeiro Tião Ventinha.
A mente humana costuma julgar depressa e quase sempre pela parte mais visível. Guarda o defeito, espalha o deslize e procura raramente a bondade escondida. Durante anos, todos acreditaram que Tião colecionava pecados alheios. Somente após sua morte descobriram que ele preservava virtudes.
O homem que parecia viver da indiscrição soubera respeitar os segredos mais dolorosos. Poderia ter manchado reputações, mas preferiu registrar gestos de bondade. E sua dignidade, silenciosa e rente ao chão, revelou-se muito maior do que todos os fuxicos que lhe haviam atribuído.

Fortaleza, 15 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes