ONDE ANDARÃO OS GRITOS DA MINHA INFÂNCIA?
ONDE ANDARÃO OS GRITOS DA MINHA INFÂNCIA?
“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Essa afirmação, atribuída a Lavoisier e repetida há séculos, levou-me a uma pergunta que talvez a ciência não possa responder:
Onde andarão os gritos e as risadas da minha infância?
A título de exercício ficcional, imagino entrar numa máquina do tempo e retornar à minha gloriosa infância em Aracati. Pediria que ela me deixasse exatamente na Rua Santos Dumont, palco maior da minha felicidade.
Ao desembarcar, eu me veria menino outra vez, brincando nas calçadas, correndo descalço pela rua, jogando bola de meia, provocando os amigos e soltando aquelas gargalhadas homéricas que somente as crianças sabem dar — gargalhadas inteiras, despreocupadas, ainda não feridas pelas inquietações da vida.
No final da tarde, já cansado e coberto de poeira, ouviria a voz de minha mãe chamando:
— Nilton, venha tomar banho!
Entraria contrariado, tomaria banho, jantaria às pressas e voltaria para a calçada. Ali ficaria, quieto, ouvindo as conversas dos adultos sentados em suas cadeiras, enquanto as músicas transmitidas pelas radiadoras se espalhavam pela rua e embalavam as primeiras horas da noite.
Na manhã seguinte, acordaria ao som de dezenas de pássaros que se abrigavam nas árvores do quintal de nossa casa. Era uma cantoria tão intensa que dispensava relógio, despertador e qualquer outro chamado. A própria natureza se encarregava de anunciar o amanhecer.
Nesse retorno fantástico, eu também esperaria pelo apito da Fábrica de Tecidos, convocando seus operários para mais um dia de trabalho. Aquele som atravessava a cidade e se misturava à vida dos aracatienses.
Depois, a um chamado de minha mãe, eu me veria novamente a caminho do Grupo Escolar Barão de Aracati. E meu júbilo se completaria quando tornasse a ouvir as vozes de minhas queridas professoras, especialmente a de Orminda Dias.
Seria como me transportar para um céu feito de passado.
Seria a glória me revisitando.
Mas toda viagem imaginária tem o seu regresso. Ao abandonar o sonho e retornar à realidade, eu certamente me perguntaria, com uma tristeza que não sei esconder:
Onde foram parar todos aqueles sons?
Para onde foram as vozes, os chamados, os apitos, o canto dos pássaros e as gargalhadas dos meninos?
Teriam se propagado pelo espaço, perdido a força pouco a pouco e se transformado em outras formas de energia? Continuariam vagando pelo mundo, tão distantes e frágeis que nenhum ouvido humano conseguiria mais alcançá-los?
Não sei.
Sei apenas que voltei àquela rua muitos anos depois e a encontrei completamente diferente. Algumas casas ainda permaneciam de pé, mas já não eram as mesmas. Outras haviam desaparecido. Muitas mudaram de moradores, de feição e de destino.
Os antigos amigos cresceram, envelheceram, foram embora ou morreram. As mães já não chamam os filhos no final da tarde. Os adultos não colocam mais suas cadeiras nas calçadas. As radiadoras não existem mais. O apito da fábrica perdeu-se no tempo depois que ela fechou. Até os pássaros parecem ter procurado outros quintais.
E talvez este seja o maior castigo que os anos me impuseram: o silêncio passou a ocupar o lugar onde antes moravam tantas vozes.
Caminho pela rua e tento ouvir alguma coisa. Procuro o chamado de minha mãe, as conversas dos vizinhos, o riso dos companheiros, o barulho da bola de meia batendo no muro. Entretanto, o que chega aos meus ouvidos são apenas os sons do presente — estranhos, apressados, indiferentes à criança que um dia correu por ali.
Confesso que isso me causa profunda tristeza.
Dói saber que ainda guardo os rostos, os lugares e os acontecimentos, mas já não consigo reproduzir com fidelidade as vozes daqueles que amei. Posso recordar o movimento dos lábios de minha mãe, mas não ouço claramente o som de sua voz. Posso rever os amigos correndo, mas suas gargalhadas chegam abafadas, como se viessem do outro lado de uma parede levantada pelo tempo.
Essa talvez seja uma das maiores crueldades da velhice: conservar a lembrança de quem falou conosco e, aos poucos, esquecer a música de sua voz.
Mas é justamente quando a tristeza parece vencer que faço uma descoberta.
Talvez os gritos e as risadas não estejam mais na rua porque se transformaram. Converteram-se em lembranças, saudades, histórias e crônicas.
As gargalhadas daqueles meninos sobrevivem na memória do homem envelhecido. Cada vez que escrevo sobre aquele tempo, devolvo voz às crianças que os anos silenciaram. Cada palavra colocada no papel é uma porta que se abre; cada lembrança recuperada é uma calçada que reaparece; cada crônica é uma pequena máquina do tempo.
Minha infância, portanto, não desapareceu inteiramente.
Transformou-se no homem que sou.
Agora compreendo que os sons do passado não morreram. Apenas deixaram de ser escutados pelos ouvidos e passaram a ser ouvidos pelo coração.
Talvez, nas tardes em que o vento sopra do lado do Rio Jaguaribe e atravessa a velha Rua Santos Dumont, alguém ainda consiga escutar, sem saber de onde vêm, os gritos e as gargalhadas de alguns meninos correndo por uma rua que já não existe como antes.
Um deles sou eu.
Ou fui.
Ou, enquanto puder recordar e escrever, talvez ainda seja.
Fortaleza, 19 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes
“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
Essa afirmação, atribuída a Lavoisier e repetida há séculos, levou-me a uma pergunta que talvez a ciência não possa responder:
Onde andarão os gritos e as risadas da minha infância?
A título de exercício ficcional, imagino entrar numa máquina do tempo e retornar à minha gloriosa infância em Aracati. Pediria que ela me deixasse exatamente na Rua Santos Dumont, palco maior da minha felicidade.
Ao desembarcar, eu me veria menino outra vez, brincando nas calçadas, correndo descalço pela rua, jogando bola de meia, provocando os amigos e soltando aquelas gargalhadas homéricas que somente as crianças sabem dar — gargalhadas inteiras, despreocupadas, ainda não feridas pelas inquietações da vida.
No final da tarde, já cansado e coberto de poeira, ouviria a voz de minha mãe chamando:
— Nilton, venha tomar banho!
Entraria contrariado, tomaria banho, jantaria às pressas e voltaria para a calçada. Ali ficaria, quieto, ouvindo as conversas dos adultos sentados em suas cadeiras, enquanto as músicas transmitidas pelas radiadoras se espalhavam pela rua e embalavam as primeiras horas da noite.
Na manhã seguinte, acordaria ao som de dezenas de pássaros que se abrigavam nas árvores do quintal de nossa casa. Era uma cantoria tão intensa que dispensava relógio, despertador e qualquer outro chamado. A própria natureza se encarregava de anunciar o amanhecer.
Nesse retorno fantástico, eu também esperaria pelo apito da Fábrica de Tecidos, convocando seus operários para mais um dia de trabalho. Aquele som atravessava a cidade e se misturava à vida dos aracatienses.
Depois, a um chamado de minha mãe, eu me veria novamente a caminho do Grupo Escolar Barão de Aracati. E meu júbilo se completaria quando tornasse a ouvir as vozes de minhas queridas professoras, especialmente a de Orminda Dias.
Seria como me transportar para um céu feito de passado.
Seria a glória me revisitando.
Mas toda viagem imaginária tem o seu regresso. Ao abandonar o sonho e retornar à realidade, eu certamente me perguntaria, com uma tristeza que não sei esconder:
Onde foram parar todos aqueles sons?
Para onde foram as vozes, os chamados, os apitos, o canto dos pássaros e as gargalhadas dos meninos?
Teriam se propagado pelo espaço, perdido a força pouco a pouco e se transformado em outras formas de energia? Continuariam vagando pelo mundo, tão distantes e frágeis que nenhum ouvido humano conseguiria mais alcançá-los?
Não sei.
Sei apenas que voltei àquela rua muitos anos depois e a encontrei completamente diferente. Algumas casas ainda permaneciam de pé, mas já não eram as mesmas. Outras haviam desaparecido. Muitas mudaram de moradores, de feição e de destino.
Os antigos amigos cresceram, envelheceram, foram embora ou morreram. As mães já não chamam os filhos no final da tarde. Os adultos não colocam mais suas cadeiras nas calçadas. As radiadoras não existem mais. O apito da fábrica perdeu-se no tempo depois que ela fechou. Até os pássaros parecem ter procurado outros quintais.
E talvez este seja o maior castigo que os anos me impuseram: o silêncio passou a ocupar o lugar onde antes moravam tantas vozes.
Caminho pela rua e tento ouvir alguma coisa. Procuro o chamado de minha mãe, as conversas dos vizinhos, o riso dos companheiros, o barulho da bola de meia batendo no muro. Entretanto, o que chega aos meus ouvidos são apenas os sons do presente — estranhos, apressados, indiferentes à criança que um dia correu por ali.
Confesso que isso me causa profunda tristeza.
Dói saber que ainda guardo os rostos, os lugares e os acontecimentos, mas já não consigo reproduzir com fidelidade as vozes daqueles que amei. Posso recordar o movimento dos lábios de minha mãe, mas não ouço claramente o som de sua voz. Posso rever os amigos correndo, mas suas gargalhadas chegam abafadas, como se viessem do outro lado de uma parede levantada pelo tempo.
Essa talvez seja uma das maiores crueldades da velhice: conservar a lembrança de quem falou conosco e, aos poucos, esquecer a música de sua voz.
Mas é justamente quando a tristeza parece vencer que faço uma descoberta.
Talvez os gritos e as risadas não estejam mais na rua porque se transformaram. Converteram-se em lembranças, saudades, histórias e crônicas.
As gargalhadas daqueles meninos sobrevivem na memória do homem envelhecido. Cada vez que escrevo sobre aquele tempo, devolvo voz às crianças que os anos silenciaram. Cada palavra colocada no papel é uma porta que se abre; cada lembrança recuperada é uma calçada que reaparece; cada crônica é uma pequena máquina do tempo.
Minha infância, portanto, não desapareceu inteiramente.
Transformou-se no homem que sou.
Agora compreendo que os sons do passado não morreram. Apenas deixaram de ser escutados pelos ouvidos e passaram a ser ouvidos pelo coração.
Talvez, nas tardes em que o vento sopra do lado do Rio Jaguaribe e atravessa a velha Rua Santos Dumont, alguém ainda consiga escutar, sem saber de onde vêm, os gritos e as gargalhadas de alguns meninos correndo por uma rua que já não existe como antes.
Um deles sou eu.
Ou fui.
Ou, enquanto puder recordar e escrever, talvez ainda seja.
Fortaleza, 19 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes