OS MORTOS QUE TROCARAM DE LUGAR
OS MORTOS QUE TROCARAM DE LUGAR
No dia 24 de junho de 1923, um enorme pássaro de metal surgiu no céu de Aracati.
O povo correu às janelas, subiu nos muros e procurou os lugares mais altos. Alguns pensaram que fosse o fim do mundo; outros juraram tratar-se de uma ave gigantesca, daquelas que somente apareciam nas histórias contadas à luz dos candeeiros.
Era o hidroavião Junkers D218, pilotado pelos alemães Werner Junkers e Hermann Mueller. Os aviadores viajavam de Cuba para o Rio de Janeiro quando uma pane no motor os obrigou a amerissar no Rio Jaguaribe. Uma segunda aeronave da expedição já havia caído na Ilha de Marajó, causando a morte do piloto Willy Thill.
O aparelho pousou tranquilamente sobre as águas, para espanto e encantamento da população. Nunca se vira coisa semelhante por aquelas bandas.
Enquanto o motor era consertado, os alemães receberam homenagens de autoridades, comerciantes e pessoas importantes de Aracati. Houve discursos, cumprimentos e toda sorte de gentilezas.
Muitas mulheres ficaram encantadas com Werner, jovem, louro e, segundo corria de boca em boca, milionário. Alguns homens também não esconderam a admiração. Contam até que um rapaz chamado Bené perdeu o juízo pelo aviador e anunciou que se mataria, atirando-se da ponte sobre o Jaguaribe, caso ele fosse embora.
O vizinho, homem prático e pouco afeito a tragédias românticas, perguntou:
— Mas que ponte, Bené, se ela nem saiu do papel?
Diante da dificuldade, Bené adiou o suicídio. Dizem que ficou esperando a construção da ponte, mas, quando ela finalmente chegou, em 1959, a paixão já havia passado — e a coragem também.
Na hora da partida, uma multidão se reuniu à margem do Jaguaribe. O hidroavião deslizou sobre as águas, ganhou velocidade e levantou voo sob aplausos, vivas e acenos.
Desejando agradecer a hospitalidade recebida, Werner realizou uma manobra sobre o rio. Nesse instante, uma forte rajada de vento vinda do litoral atingiu a aeronave.
O aparelho perdeu altura e chocou-se violentamente contra as barreiras do Jaguaribe.
A explosão estremeceu a cidade.
As pessoas correram apavoradas. Mulheres gritavam, homens se benziam e crianças choravam. Os dois pilotos morreram carbonizados entre o ferro retorcido e as labaredas.
Enquanto Aracati se comovia com a morte dos estrangeiros, outra vida chegava silenciosamente ao fim.
Havia anos que a tuberculose consumia a parteira Julita. Quase sempre estendida num catre, recebia os cuidados de Rosa, sua única filha mulher, já próxima dos quarenta anos. Tinha ainda três filhos homens, que também acompanhavam, impotentes, o sofrimento da mãe.
Por duas vezes, Julita recebera a extrema-unção. Em ambas, quando todos esperavam que desse o último suspiro, abrira os olhos e afirmara:
— Minha hora ainda não chegou. Sou amiga da morte. Pedi mais um tempinho, e ela me concedeu.
Naquele mesmo 24 de junho, porém, Rosa percebeu que a mãe não passaria do dia.
Depois da explosão, entrou no quarto e contou-lhe a tragédia. Julita ouviu tudo sem demonstrar espanto. Após alguns instantes, respondeu:
— Eu não conheço esses alemães, nem eles me conhecem. Assim, para mim, é mesmo que haver morrido dois bodes mochos.
Fez uma breve pausa e acrescentou:
— Pensando melhor, os bodes têm ainda maior serventia. Com bastante tempero, pode-se fazer um guisado capaz de ressuscitar até defunto.
Rosa não conseguiu conter um sorriso. Julita, mesmo às portas da morte, ainda encontrava forças para zombar dela.
Pouco depois, quando a filha saiu do quarto, a velha parteira morreu silenciosamente.
Naquele tempo, não havia caixões prontos em Aracati. As urnas eram feitas sob encomenda por um único marceneiro especializado. Naquele dia, porém, ele estava inteiramente ocupado construindo os caixões dos aviadores e não pôde atender à família de Julita.
Aos filhos restou pedir emprestado à Igreja Matriz o velho caixão destinado aos indigentes: negro, sem tampa e impregnado pelo cheiro dos muitos mortos que já havia conduzido.
Os sepultamentos aconteceram quase na mesma hora.
Dizia-se que mais de sete mil pessoas acompanharam os alemães, sob o toque doloroso do sino-mor. Autoridades, comerciantes, religiosos e curiosos disputavam um lugar próximo aos mortos ilustres. As ruas ficaram tomadas pela multidão.
O cortejo de Julita era formado apenas pelos quatro filhos, que carregavam nos ombros o caixão emprestado.
Ninguém mais acompanhou a mulher que passara a vida ajudando as crianças de Aracati a nascer. Nenhuma autoridade apareceu. Nenhum sino dobrou por sua alma. Nenhuma voz pronunciou um discurso em sua homenagem.
Como os coveiros estavam ocupados com o enterro dos aviadores, os próprios filhos tiveram de abrir a sepultura da mãe.
Ali, diante daquela injustiça — madeira nova, sinos, sacerdotes e uma multidão para os estrangeiros; abandono, silêncio e uma cova humilde para Julita —, os quatro fizeram um juramento:
Um dia vingariam a mãe.
No ano seguinte, uma grande enchente invadiu Aracati e destruiu boa parte do cemitério. Ossadas ficaram expostas, cruzes tombaram e muitas sepulturas desapareceram sob a lama. Os mortos, ricos e pobres, misturaram-se como se a própria natureza quisesse corrigir as diferenças estabelecidas pelos vivos.
Depois da enchente, as autoridades restauraram os jazigos das famílias importantes e, com especial cuidado, o mausoléu dos aviadores alemães.
A sepultura de Julita permaneceu abandonada.
Os filhos compreenderam que a hora havia chegado.
Numa noite sem lua, pularam o muro do cemitério e procuraram os restos mortais da mãe. Encontraram-nos entre a terra revolvida e os despojos deixados pelas águas.
Levaram as ossadas até o mausoléu dos alemães, cuja nova portinhola ainda não havia sido colocada. Retiraram dali os restos dos dois pilotos e depositaram Julita no túmulo de mármore. Depois, lançaram os ossos dos aviadores entre as ossadas anônimas espalhadas pela enchente.
Estava cumprido o juramento.
Desde então, no Dia de Finados, o mausoléu tornou-se um dos mais visitados de Aracati. Pessoas depositam flores, acendem velas, fazem orações e lamentam o destino dos dois jovens alemães, sem imaginar que é Julita quem repousa sob aqueles nomes.
A parteira que ajudara tantas crianças a chegar ao mundo passou finalmente a receber as homenagens que lhe haviam sido negadas na hora de partir.
Talvez a morte, sua velha amiga, tenha cumprido o último acordo entre as duas. Não lhe deu um cortejo, não fez o sino dobrar por sua alma nem levou uma multidão ao seu enterro. Em compensação, concedeu-lhe um túmulo de mármore, flores todos os anos e visitantes que rezam diante de seus restos, ainda que pronunciem outros nomes.
Werner Junkers e Hermann Mueller continuam gravados na pedra.
Contudo, segundo a história contada em voz baixa pelos antigos, é a parteira Julita quem dorme naquele mausoléu.
Nota do autor: o acidente envolvendo o hidroavião Junkers D218 é um acontecimento histórico. O enredo relacionado a Julita, aos seus filhos e a possível troca das ossadas pertence à tradição oral e pode conter elementos de criação artística.
Fortaleza, 22 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes
No dia 24 de junho de 1923, um enorme pássaro de metal surgiu no céu de Aracati.
O povo correu às janelas, subiu nos muros e procurou os lugares mais altos. Alguns pensaram que fosse o fim do mundo; outros juraram tratar-se de uma ave gigantesca, daquelas que somente apareciam nas histórias contadas à luz dos candeeiros.
Era o hidroavião Junkers D218, pilotado pelos alemães Werner Junkers e Hermann Mueller. Os aviadores viajavam de Cuba para o Rio de Janeiro quando uma pane no motor os obrigou a amerissar no Rio Jaguaribe. Uma segunda aeronave da expedição já havia caído na Ilha de Marajó, causando a morte do piloto Willy Thill.
O aparelho pousou tranquilamente sobre as águas, para espanto e encantamento da população. Nunca se vira coisa semelhante por aquelas bandas.
Enquanto o motor era consertado, os alemães receberam homenagens de autoridades, comerciantes e pessoas importantes de Aracati. Houve discursos, cumprimentos e toda sorte de gentilezas.
Muitas mulheres ficaram encantadas com Werner, jovem, louro e, segundo corria de boca em boca, milionário. Alguns homens também não esconderam a admiração. Contam até que um rapaz chamado Bené perdeu o juízo pelo aviador e anunciou que se mataria, atirando-se da ponte sobre o Jaguaribe, caso ele fosse embora.
O vizinho, homem prático e pouco afeito a tragédias românticas, perguntou:
— Mas que ponte, Bené, se ela nem saiu do papel?
Diante da dificuldade, Bené adiou o suicídio. Dizem que ficou esperando a construção da ponte, mas, quando ela finalmente chegou, em 1959, a paixão já havia passado — e a coragem também.
Na hora da partida, uma multidão se reuniu à margem do Jaguaribe. O hidroavião deslizou sobre as águas, ganhou velocidade e levantou voo sob aplausos, vivas e acenos.
Desejando agradecer a hospitalidade recebida, Werner realizou uma manobra sobre o rio. Nesse instante, uma forte rajada de vento vinda do litoral atingiu a aeronave.
O aparelho perdeu altura e chocou-se violentamente contra as barreiras do Jaguaribe.
A explosão estremeceu a cidade.
As pessoas correram apavoradas. Mulheres gritavam, homens se benziam e crianças choravam. Os dois pilotos morreram carbonizados entre o ferro retorcido e as labaredas.
Enquanto Aracati se comovia com a morte dos estrangeiros, outra vida chegava silenciosamente ao fim.
Havia anos que a tuberculose consumia a parteira Julita. Quase sempre estendida num catre, recebia os cuidados de Rosa, sua única filha mulher, já próxima dos quarenta anos. Tinha ainda três filhos homens, que também acompanhavam, impotentes, o sofrimento da mãe.
Por duas vezes, Julita recebera a extrema-unção. Em ambas, quando todos esperavam que desse o último suspiro, abrira os olhos e afirmara:
— Minha hora ainda não chegou. Sou amiga da morte. Pedi mais um tempinho, e ela me concedeu.
Naquele mesmo 24 de junho, porém, Rosa percebeu que a mãe não passaria do dia.
Depois da explosão, entrou no quarto e contou-lhe a tragédia. Julita ouviu tudo sem demonstrar espanto. Após alguns instantes, respondeu:
— Eu não conheço esses alemães, nem eles me conhecem. Assim, para mim, é mesmo que haver morrido dois bodes mochos.
Fez uma breve pausa e acrescentou:
— Pensando melhor, os bodes têm ainda maior serventia. Com bastante tempero, pode-se fazer um guisado capaz de ressuscitar até defunto.
Rosa não conseguiu conter um sorriso. Julita, mesmo às portas da morte, ainda encontrava forças para zombar dela.
Pouco depois, quando a filha saiu do quarto, a velha parteira morreu silenciosamente.
Naquele tempo, não havia caixões prontos em Aracati. As urnas eram feitas sob encomenda por um único marceneiro especializado. Naquele dia, porém, ele estava inteiramente ocupado construindo os caixões dos aviadores e não pôde atender à família de Julita.
Aos filhos restou pedir emprestado à Igreja Matriz o velho caixão destinado aos indigentes: negro, sem tampa e impregnado pelo cheiro dos muitos mortos que já havia conduzido.
Os sepultamentos aconteceram quase na mesma hora.
Dizia-se que mais de sete mil pessoas acompanharam os alemães, sob o toque doloroso do sino-mor. Autoridades, comerciantes, religiosos e curiosos disputavam um lugar próximo aos mortos ilustres. As ruas ficaram tomadas pela multidão.
O cortejo de Julita era formado apenas pelos quatro filhos, que carregavam nos ombros o caixão emprestado.
Ninguém mais acompanhou a mulher que passara a vida ajudando as crianças de Aracati a nascer. Nenhuma autoridade apareceu. Nenhum sino dobrou por sua alma. Nenhuma voz pronunciou um discurso em sua homenagem.
Como os coveiros estavam ocupados com o enterro dos aviadores, os próprios filhos tiveram de abrir a sepultura da mãe.
Ali, diante daquela injustiça — madeira nova, sinos, sacerdotes e uma multidão para os estrangeiros; abandono, silêncio e uma cova humilde para Julita —, os quatro fizeram um juramento:
Um dia vingariam a mãe.
No ano seguinte, uma grande enchente invadiu Aracati e destruiu boa parte do cemitério. Ossadas ficaram expostas, cruzes tombaram e muitas sepulturas desapareceram sob a lama. Os mortos, ricos e pobres, misturaram-se como se a própria natureza quisesse corrigir as diferenças estabelecidas pelos vivos.
Depois da enchente, as autoridades restauraram os jazigos das famílias importantes e, com especial cuidado, o mausoléu dos aviadores alemães.
A sepultura de Julita permaneceu abandonada.
Os filhos compreenderam que a hora havia chegado.
Numa noite sem lua, pularam o muro do cemitério e procuraram os restos mortais da mãe. Encontraram-nos entre a terra revolvida e os despojos deixados pelas águas.
Levaram as ossadas até o mausoléu dos alemães, cuja nova portinhola ainda não havia sido colocada. Retiraram dali os restos dos dois pilotos e depositaram Julita no túmulo de mármore. Depois, lançaram os ossos dos aviadores entre as ossadas anônimas espalhadas pela enchente.
Estava cumprido o juramento.
Desde então, no Dia de Finados, o mausoléu tornou-se um dos mais visitados de Aracati. Pessoas depositam flores, acendem velas, fazem orações e lamentam o destino dos dois jovens alemães, sem imaginar que é Julita quem repousa sob aqueles nomes.
A parteira que ajudara tantas crianças a chegar ao mundo passou finalmente a receber as homenagens que lhe haviam sido negadas na hora de partir.
Talvez a morte, sua velha amiga, tenha cumprido o último acordo entre as duas. Não lhe deu um cortejo, não fez o sino dobrar por sua alma nem levou uma multidão ao seu enterro. Em compensação, concedeu-lhe um túmulo de mármore, flores todos os anos e visitantes que rezam diante de seus restos, ainda que pronunciem outros nomes.
Werner Junkers e Hermann Mueller continuam gravados na pedra.
Contudo, segundo a história contada em voz baixa pelos antigos, é a parteira Julita quem dorme naquele mausoléu.
Nota do autor: o acidente envolvendo o hidroavião Junkers D218 é um acontecimento histórico. O enredo relacionado a Julita, aos seus filhos e a possível troca das ossadas pertence à tradição oral e pode conter elementos de criação artística.
Fortaleza, 22 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes