MALAGUETA DO DESERTO
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O MENINO QUE TINHA VERGONHA DE LEVAR RAPADURA PARA A ESCOLA

O MENINO QUE TINHA VERGONHA DE LEVAR RAPADURA PARA A ESCOLA

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O MENINO QUE TINHA VERGONHA DE LEVAR RAPADURA PARA A ESCOLA

Guardo, com muita saudade, lembranças vivas do período em que estudei no Ginásio Marista de Aracati. Recordo alguns amigos e professores que deixaram marcas indeléveis em minha existência.
Nem todas as recordações, porém, são alegres. Permanecem em minha memória certos acontecimentos condenáveis, capazes de entristecer os dias de uma criança e deixar feridas que o tempo talvez amenize, mas nem sempre consegue apagar.
O Ginásio Marista abrigava alunos das mais variadas condições sociais. Havia filhos de famílias ricas e influentes, de famílias pobres, de famílias muito pobres e até de pobres que, por orgulho ou aparência, julgavam-se ricos.
Os internos, salvo raras exceções, pertenciam a famílias abastadas ou remediadas, principalmente de Fortaleza, Mossoró e de cidades do Vale do Jaguaribe.
A instituição fundada por Marcelino Champagnat — hoje São Marcelino Champagnat — acolhia também crianças e jovens sem recursos, cumprindo o propósito de seu fundador: levar educação e formação religiosa àqueles que dificilmente teriam acesso à escola, como ele próprio fizera nas regiões rurais da França.
Havia ainda outra categoria: a dos bolsistas, à qual eu pertencia.
Antes da chegada do chamado leite FISI, distribuído pelo governo, os alunos externos — aqueles que moravam na cidade — costumavam levar merenda de casa. Geralmente era pão com doce, pão com queijo, banana ou qualquer alimento que estivesse ao alcance da família.
Os internos, que viviam na própria instituição, faziam a refeição em um refeitório reservado. Nunca soube o que lhes era servido. Para nós, meninos externos, aquele lugar parecia pertencer a um mundo separado.
Depois que o leite FISI começou a ser distribuído, poucos continuaram levando merenda. Restou apenas meia dúzia de meninos que se julgavam a última cocada da feira e faziam questão de exibir o que traziam de casa.
Mas esta história aconteceu antes disso.
Zé Matias morava na periferia de Aracati. Costumava levar uma banana para a merenda. Era o que sua família podia oferecer e, certamente, o que lhe permitia enfrentar as horas de estudo sem o estômago vazio.
Para alguns colegas, porém, aquela simples banana parecia motivo suficiente para zombaria.
Com o passar do tempo, Matias começou a procurar um lugar mais reservado para comer, tentando livrar-se dos comentários maldosos. Comia depressa, quase escondido, e guardava a casca na mochila. Nunca o vi jogá-la no chão.
Até esse cuidado servia de motivo para risos.
Riam diante dele, sem piedade, como se a pobreza fosse uma culpa, e a humilhação uma brincadeira inocente. Hoje chamamos isso de bullying. Naquele tempo, não havia nome estrangeiro nem campanhas educativas. Havia apenas a crueldade de quem ria e o silêncio dolorido de quem precisava suportar.
Certo dia, por razões que jamais conheceremos, a banana foi substituída por uma fatia de rapadura preta, envolvida naquele papel de embrulho tão comum na época.
Quando Matias abriu o pacote, a risada foi geral. Vieram as piadas, os apelidos e até agressões físicas.
Matias não revidava.
Comia a rapadura em silêncio, bebia água e entrava na sala de aula.
Talvez tenha aprendido naquele instante uma das lições mais duras da vida: existem pessoas capazes de transformar até o alimento de uma criança em instrumento de humilhação.
Hoje, na lonjura daqueles acontecimentos, compreendo melhor como o orgulho, a segregação social e a falta de compaixão faziam parte do cotidiano escolar. A escola, que deveria ensinar igualdade e fraternidade, muitas vezes reproduzia dentro de seus muros as injustiças existentes do lado de fora.
Matias concluiu os estudos em Aracati e mudou-se para Recife. Mais tarde, venceu um concurso público e tornou-se Procurador da República.
Aposentado, ainda se recorda de sua cidade natal. Nunca mais voltou a Aracati, embora conserve lembranças saudosas de sua gente e dos amigos de infância — até mesmo daqueles que faziam troça de sua humilde merenda.
Não sei se ainda guarda na memória aquela fatia de rapadura. Talvez sim. Há sabores que desaparecem na boca, mas permanecem para sempre na alma.
Os meninos que riram certamente esqueceram o episódio. Para eles, foi apenas uma brincadeira durante o recreio. Para Matias, porém, pode ter sido uma pequena dor carregada por toda a vida.
A pobreza nunca diminuiu ninguém. O que verdadeiramente apequena uma pessoa é humilhar o outro por aquilo que ele veste, pelo lugar onde mora ou pelo alimento que leva para a escola.
Naquele recreio, a rapadura era pobre apenas na aparência.
Pobre mesmo era a compaixão de quem ria.

Fortaleza, 28 de setembro de 2026
José Nilton Fernandes

Nota do autor: Zé Matias é um nome fictício. A história, porém, aconteceu de fato, e eu fui testemunha desse episódio.