O HOMEM QUE ENTROU NA MINHA CASA POR ENGANO
Costumo dizer que a vida possui um roteirista muito mais criativo do que qualquer escritor. De vez em quando, ele resolve brincar conosco e produz situações tão absurdas que nem mesmo um cronista teria coragem de inventar.
Moro na casa de número 701. Em frente à minha residência mora meu amigo Augusto, na casa de número 710.
Os números são diferentes. As casas também.
Mesmo assim, numa certa manhã, tudo isso se misturou de tal maneira que terminou com um estranho passeando pelo meu jardim como se fosse dono da casa.
Nesse dia, eu ainda me recuperava de uma cirurgia de catarata com implantação de lente intraocular. Minha visão melhorava a cada dia, mas ainda apresentava alguns caprichos. Dependendo da distância, uma pessoa podia parecer outra. Dependendo da iluminação, um gato podia parecer um cachorro.
Todas as manhãs, por volta das sete horas, chega à minha casa o Naldinho, encarregado de cuidar do jardim e dos animais domésticos.
O ritual é sempre o mesmo.
A campainha toca.
Olho rapidamente para o monitor da câmera.
Reconheço o Naldinho.
Aperto o controle remoto.
O portão abre.
Fim da história.
Ou pelo menos deveria ser.
Naquela manhã, a campainha tocou.
Olhei para o monitor.
Vi um homem baixo usando boné.
Pronto.
Meu cérebro encerrou a investigação.
— É o Naldinho.
Apertei o controle remoto e voltei para minha confortável rede de dormir.
Missão cumprida.
Ou assim imaginei.
Poucos minutos depois, comecei a ouvir vozes no jardim.
Uma voz preocupada.
Depois, outra.
Parecia haver alguém tentando resolver um problema urgente.
Pensei que Naldinho estivesse conversando sozinho.
Não seria novidade.
Continuei balançando suavemente na rede, cultivando a santa arte de não me preocupar com nada.
Alguns minutos depois, a campainha tocou novamente.
Aquilo já começava a fugir do roteiro habitual.
Levantei-me e fui até o portão.
Ao chegar, encontrei uma cena que parecia saída de uma comédia.
Dentro do meu jardim havia um homem desconhecido completamente nervoso.
Do lado de fora estava Augusto, celular na mão, tentando falar comigo.
O desconhecido falava.
Augusto falava.
Eu tentava entender.
Ninguém entendia ninguém.
Aos poucos, porém, o quebra-cabeça foi se montando.
O homem era visitante de Augusto.
Mais precisamente, um bombeiro hidráulico.
Vinha pela primeira vez à rua para executar um serviço.
Chegou diante da casa.
Tocou a campainha.
O portão abriu.
Entrou.
Tudo perfeitamente normal.
Afinal, quando alguém abre um portão para você entrar, a tendência natural é acreditar que você está no lugar certo.
Só que não estava.
Após alguns minutos caminhando pelo jardim, começou a estranhar a situação.
Ninguém se apresentava.
Não reconhecia a casa.
Não sabia onde estava.
Foi então que telefonou para Augusto.
— Estou aqui no seu jardim.
Augusto respondeu:
— Impossível. Estou no meu jardim e não tem ninguém aqui.
O bombeiro insistiu:
— Mas estou vendo plantas.
— Eu também.
— Tem uma garagem?
— Claro que tem.
Os dois começaram a desconfiar que um deles havia enlouquecido.
Enquanto isso, eu descansava na rede, completamente alheio ao drama.
Augusto saiu para a calçada procurando o visitante desaparecido.
O visitante procurava Augusto.
E eu procurava apenas uma posição mais confortável para continuar descansando.
Quando finalmente nos encontramos, permanecemos sérios por alguns segundos.
Depois caímos na gargalhada.
O pobre homem havia conseguido um feito raro: entrar na casa errada com autorização do dono errado.
Como se a história ainda precisasse de um desfecho mais engraçado, cerca de vinte minutos depois apareceu o verdadeiro Naldinho.
Boné na cabeça.
Exatamente como todos os dias.
Olhei para ele.
Olhei para o visitante.
Olhei para Augusto.
Naquele instante, compreendi que a única semelhança entre os dois existia dentro da minha visão pós-cirúrgica.
O bombeiro pediu desculpas várias vezes.
Não havia motivo.
Ele apenas entrou onde lhe abriram o portão.
A responsabilidade era toda minha.
Desde então, aprendi duas lições importantes.
A primeira é que catarata e câmeras de segurança não formam uma parceria particularmente confiável.
A segunda é que nunca se deve abrir um portão apenas porque alguém usa boné.
Porque, às vezes, o visitante não é ladrão, não é conhecido e nem sequer está procurando você.
Está apenas procurando a casa número 710.
Fortaleza, 20 de julho de 2026
José Nilton Fernandes
Moro na casa de número 701. Em frente à minha residência mora meu amigo Augusto, na casa de número 710.
Os números são diferentes. As casas também.
Mesmo assim, numa certa manhã, tudo isso se misturou de tal maneira que terminou com um estranho passeando pelo meu jardim como se fosse dono da casa.
Nesse dia, eu ainda me recuperava de uma cirurgia de catarata com implantação de lente intraocular. Minha visão melhorava a cada dia, mas ainda apresentava alguns caprichos. Dependendo da distância, uma pessoa podia parecer outra. Dependendo da iluminação, um gato podia parecer um cachorro.
Todas as manhãs, por volta das sete horas, chega à minha casa o Naldinho, encarregado de cuidar do jardim e dos animais domésticos.
O ritual é sempre o mesmo.
A campainha toca.
Olho rapidamente para o monitor da câmera.
Reconheço o Naldinho.
Aperto o controle remoto.
O portão abre.
Fim da história.
Ou pelo menos deveria ser.
Naquela manhã, a campainha tocou.
Olhei para o monitor.
Vi um homem baixo usando boné.
Pronto.
Meu cérebro encerrou a investigação.
— É o Naldinho.
Apertei o controle remoto e voltei para minha confortável rede de dormir.
Missão cumprida.
Ou assim imaginei.
Poucos minutos depois, comecei a ouvir vozes no jardim.
Uma voz preocupada.
Depois, outra.
Parecia haver alguém tentando resolver um problema urgente.
Pensei que Naldinho estivesse conversando sozinho.
Não seria novidade.
Continuei balançando suavemente na rede, cultivando a santa arte de não me preocupar com nada.
Alguns minutos depois, a campainha tocou novamente.
Aquilo já começava a fugir do roteiro habitual.
Levantei-me e fui até o portão.
Ao chegar, encontrei uma cena que parecia saída de uma comédia.
Dentro do meu jardim havia um homem desconhecido completamente nervoso.
Do lado de fora estava Augusto, celular na mão, tentando falar comigo.
O desconhecido falava.
Augusto falava.
Eu tentava entender.
Ninguém entendia ninguém.
Aos poucos, porém, o quebra-cabeça foi se montando.
O homem era visitante de Augusto.
Mais precisamente, um bombeiro hidráulico.
Vinha pela primeira vez à rua para executar um serviço.
Chegou diante da casa.
Tocou a campainha.
O portão abriu.
Entrou.
Tudo perfeitamente normal.
Afinal, quando alguém abre um portão para você entrar, a tendência natural é acreditar que você está no lugar certo.
Só que não estava.
Após alguns minutos caminhando pelo jardim, começou a estranhar a situação.
Ninguém se apresentava.
Não reconhecia a casa.
Não sabia onde estava.
Foi então que telefonou para Augusto.
— Estou aqui no seu jardim.
Augusto respondeu:
— Impossível. Estou no meu jardim e não tem ninguém aqui.
O bombeiro insistiu:
— Mas estou vendo plantas.
— Eu também.
— Tem uma garagem?
— Claro que tem.
Os dois começaram a desconfiar que um deles havia enlouquecido.
Enquanto isso, eu descansava na rede, completamente alheio ao drama.
Augusto saiu para a calçada procurando o visitante desaparecido.
O visitante procurava Augusto.
E eu procurava apenas uma posição mais confortável para continuar descansando.
Quando finalmente nos encontramos, permanecemos sérios por alguns segundos.
Depois caímos na gargalhada.
O pobre homem havia conseguido um feito raro: entrar na casa errada com autorização do dono errado.
Como se a história ainda precisasse de um desfecho mais engraçado, cerca de vinte minutos depois apareceu o verdadeiro Naldinho.
Boné na cabeça.
Exatamente como todos os dias.
Olhei para ele.
Olhei para o visitante.
Olhei para Augusto.
Naquele instante, compreendi que a única semelhança entre os dois existia dentro da minha visão pós-cirúrgica.
O bombeiro pediu desculpas várias vezes.
Não havia motivo.
Ele apenas entrou onde lhe abriram o portão.
A responsabilidade era toda minha.
Desde então, aprendi duas lições importantes.
A primeira é que catarata e câmeras de segurança não formam uma parceria particularmente confiável.
A segunda é que nunca se deve abrir um portão apenas porque alguém usa boné.
Porque, às vezes, o visitante não é ladrão, não é conhecido e nem sequer está procurando você.
Está apenas procurando a casa número 710.
Fortaleza, 20 de julho de 2026
José Nilton Fernandes