ARIANO SUASSUNA E DIMAS BATISTA: Dois gênios, duas formas de fazer poesia.
ARIANO SUASSUNA E DIMAS BATISTA: Dois gênios, duas formas de fazer poesia.
Há quem passe semanas procurando a palavra exata para um poema. Há quem reescreva um verso dezenas de vezes. E há aqueles que, diante de uma viola e de um bom desafio, criam uma obra inteira antes mesmo que o café esfrie.
Lembrei-me disso ao reler um famoso improviso do grande repentista Dimas Batista, dirigido, segundo a tradição dos cantadores, ao amigo Ariano Suassuna.
Conta-se que Ariano comentou com Dimas que estava escrevendo um soneto. Meses depois, voltaram a se encontrar, e o escritor disse, satisfeito, que finalmente havia concluído a composição. Foi então que Dimas, com o humor refinado que caracteriza os grandes mestres da cantoria, respondeu de improviso:
Eu muito admiro o poeta da praça,
Que passa dois anos fazendo um soneto,
Depois de três meses acaba um quarteto,
Com todo esse tempo inda fica sem graça.
Com tinta e papel o esboço ele traça,
Contando nos dedos pra metrificar,
Que noites de sono ele perde a estudar,
Pra no fim mostrar tão minguado produto,
Pois desses eu faço dois, três, num minuto,
Cantando galope na beira do mar.
É quase impossível ler esses versos sem sorrir.
Naturalmente, Dimas não diminuía o soneto. Muito pelo contrário. Sabia perfeitamente que um bom soneto exige talento, domínio da métrica, riqueza de rimas e, sobretudo, paciência.
O que ele fazia era exaltar, com fina ironia, outra forma de poesia: a do improviso.
Enquanto o poeta do gabinete consulta dicionários, risca palavras e recomeça versos, o repentista sobe ao palco sem caderno, sem rascunho e sem o direito de apagar o que acabou de dizer. A inspiração precisa surgir na hora exata, diante do público, acompanhando o ritmo da viola e obedecendo às regras da métrica como se tudo tivesse sido preparado durante semanas.
É um talento raro.
Talvez por isso Ariano Suassuna sempre demonstrasse tanto respeito pela poesia popular nordestina. Compreendia que aqueles homens, muitas vezes sem formação acadêmica, carregavam uma biblioteca inteira na memória e um extraordinário laboratório de criação na imaginação.
Não existe rivalidade entre o soneto e o repente.
São caminhos diferentes para alcançar o mesmo destino: emocionar quem lê e quem escuta.
Um nasce lentamente, como quem esculpe uma imagem em mármore.
O outro irrompe de repente, como um raio iluminando o céu do sertão.
Ambos, porém, permanecem vivos porque foram criados por quem domina o mais difícil dos ofícios: transformar palavras em encanto.
Dimas Batista conseguiu isso em apenas dez versos.
E continua arrancando sorrisos e admiração de quem os lê, décadas depois.
Sempre que releio esse improviso, concluo que Deus distribuiu os dons com admirável sabedoria: a alguns concedeu a paciência do escultor; a outros, o relâmpago da inspiração. Feliz do Nordeste, que teve as duas grandezas.
Fortaleza, 24 de julho de 2026
José Nilton Fernandes
Há quem passe semanas procurando a palavra exata para um poema. Há quem reescreva um verso dezenas de vezes. E há aqueles que, diante de uma viola e de um bom desafio, criam uma obra inteira antes mesmo que o café esfrie.
Lembrei-me disso ao reler um famoso improviso do grande repentista Dimas Batista, dirigido, segundo a tradição dos cantadores, ao amigo Ariano Suassuna.
Conta-se que Ariano comentou com Dimas que estava escrevendo um soneto. Meses depois, voltaram a se encontrar, e o escritor disse, satisfeito, que finalmente havia concluído a composição. Foi então que Dimas, com o humor refinado que caracteriza os grandes mestres da cantoria, respondeu de improviso:
Eu muito admiro o poeta da praça,
Que passa dois anos fazendo um soneto,
Depois de três meses acaba um quarteto,
Com todo esse tempo inda fica sem graça.
Com tinta e papel o esboço ele traça,
Contando nos dedos pra metrificar,
Que noites de sono ele perde a estudar,
Pra no fim mostrar tão minguado produto,
Pois desses eu faço dois, três, num minuto,
Cantando galope na beira do mar.
É quase impossível ler esses versos sem sorrir.
Naturalmente, Dimas não diminuía o soneto. Muito pelo contrário. Sabia perfeitamente que um bom soneto exige talento, domínio da métrica, riqueza de rimas e, sobretudo, paciência.
O que ele fazia era exaltar, com fina ironia, outra forma de poesia: a do improviso.
Enquanto o poeta do gabinete consulta dicionários, risca palavras e recomeça versos, o repentista sobe ao palco sem caderno, sem rascunho e sem o direito de apagar o que acabou de dizer. A inspiração precisa surgir na hora exata, diante do público, acompanhando o ritmo da viola e obedecendo às regras da métrica como se tudo tivesse sido preparado durante semanas.
É um talento raro.
Talvez por isso Ariano Suassuna sempre demonstrasse tanto respeito pela poesia popular nordestina. Compreendia que aqueles homens, muitas vezes sem formação acadêmica, carregavam uma biblioteca inteira na memória e um extraordinário laboratório de criação na imaginação.
Não existe rivalidade entre o soneto e o repente.
São caminhos diferentes para alcançar o mesmo destino: emocionar quem lê e quem escuta.
Um nasce lentamente, como quem esculpe uma imagem em mármore.
O outro irrompe de repente, como um raio iluminando o céu do sertão.
Ambos, porém, permanecem vivos porque foram criados por quem domina o mais difícil dos ofícios: transformar palavras em encanto.
Dimas Batista conseguiu isso em apenas dez versos.
E continua arrancando sorrisos e admiração de quem os lê, décadas depois.
Sempre que releio esse improviso, concluo que Deus distribuiu os dons com admirável sabedoria: a alguns concedeu a paciência do escultor; a outros, o relâmpago da inspiração. Feliz do Nordeste, que teve as duas grandezas.
Fortaleza, 24 de julho de 2026
José Nilton Fernandes