A PIOR RUÍNA É A HUMANA
A PIOR RUÍNA É A HUMANA
Há alguns meses encontrei um velho conhecido.
Não revelarei seu nome por respeito à família e porque a história poderia ser a de muitos outros.
Durante décadas, foi uma figura muito admirada de Aracati. Homem de fala firme, participava das festas da cidade, ajudava amigos em dificuldades e jamais passava despercebido quando caminhava pela Rua Grande.
Lembro-me dele ainda moço.
Alegre e bem vestido. Sapatos brilhando. Cabelo penteado com esmero. Sempre cercado de conhecidos.
Naquele tempo, parecia impossível imaginar que a vida pudesse vencê-lo.
Mas a vida vence quase todos nós.
Recentemente, encontrei-o sentado sozinho em uma praça.
Demorei alguns segundos para reconhecê-lo.
Os ombros estavam curvados. Os olhos haviam perdido o brilho. As mãos tremiam levemente. A conversa já não possuía a mesma firmeza de outros tempos. E o pior: estava quase surdo.
Sentamo-nos lado a lado. Tentamos conversar sobre amigos comuns. Quase em vão. E foi então que algo me chamou a atenção.
Ele não falava dos projetos alcançados. Não entendia quase nada.
Falava, sim, das pessoas que haviam partido. Dois amigos de infância. Uma esposa. Um compadre.
Parecia fazer um inventário de ausências.
Quando nos despedimos, fiquei observando sua figura afastar-se lentamente pela calçada.
Naquele momento, lembrei-me de um velho sobrado abandonado que existe em uma das ruas de Aracati.
As janelas desapareceram há muitos anos. O reboco caiu aos pedaços. As telhas voaram.
Quem passa por ali vê apenas uma construção antiga.
Vejo uma história.
E foi então que compreendi algo.
As ruínas das casas não me entristecem tanto quanto as ruínas humanas. Uma parede rachada continua sendo apenas uma parede. Um telhado incompleto continua sendo apenas um telhado parcial.
Mas quando um homem começa a desmoronar por dentro, a dor é outra.
Pior ainda quando esse desmoronamento não é causado pela idade.
Conheci pessoas relativamente jovens que já haviam desistido da vida.
Não morreram. Continuavam respirando. Continuavam caminhando. Continuavam trabalhando.
Mas haviam perdido a esperança.
E talvez a esperança seja uma das colunas que sustentam a alma humana. Sem ela, o edifício permanece de pé apenas na aparência.
Com o passar dos anos, percebi que existem muitas formas de ruína.
Há a ruína provocada pela bebida. Há a ruína causada pelo orgulho. Há a ruína produzida pela ganância. Há a ruína que nasce da inveja. E existe uma especialmente cruel: a ruína do esquecimento.
Ela atinge muitos idosos.
Homens e mulheres que dedicaram a vida aos filhos, aos netos, ao trabalho e à comunidade. Pessoas que um dia foram necessárias para todos.
Depois, pouco a pouco, são necessárias para quase ninguém.
É uma tragédia silenciosa. Nenhum jornal anuncia.
Mas ela acontece todos os dias.
Talvez por isso eu goste tanto de escrever sobre pessoas comuns.
Cada vez que uma história é contada, uma pequena parte dessa ruína é derrotada.
Cada lembrança preservada impede que alguém desapareça completamente.
As casas antigas de Aracati merecem ser preservadas. Suas igrejas, sobrados e monumentos contam quem fomos.
Mas os seres humanos merecem cuidado ainda maior.
Porque uma parede caída pode ser reconstruída com cimento e tijolos.
Já um coração abandonado exige materiais muito mais raros.
Exige afeto. Exige respeito. Exige presença.
Ao voltar para casa naquele dia, passei novamente diante do velho sobrado.
As rachaduras continuavam lá. As telhas quebradas também.
Mas, curiosamente, já não era nele que eu pensava. Pensava naquele homem que acabara de encontrar.
E concluí que, entre todas as ruínas produzidas pelo tempo, nenhuma é mais triste do que a ruína humana.
Fortaleza, 27 de julho de 2026
José Nilton Fernandes
Há alguns meses encontrei um velho conhecido.
Não revelarei seu nome por respeito à família e porque a história poderia ser a de muitos outros.
Durante décadas, foi uma figura muito admirada de Aracati. Homem de fala firme, participava das festas da cidade, ajudava amigos em dificuldades e jamais passava despercebido quando caminhava pela Rua Grande.
Lembro-me dele ainda moço.
Alegre e bem vestido. Sapatos brilhando. Cabelo penteado com esmero. Sempre cercado de conhecidos.
Naquele tempo, parecia impossível imaginar que a vida pudesse vencê-lo.
Mas a vida vence quase todos nós.
Recentemente, encontrei-o sentado sozinho em uma praça.
Demorei alguns segundos para reconhecê-lo.
Os ombros estavam curvados. Os olhos haviam perdido o brilho. As mãos tremiam levemente. A conversa já não possuía a mesma firmeza de outros tempos. E o pior: estava quase surdo.
Sentamo-nos lado a lado. Tentamos conversar sobre amigos comuns. Quase em vão. E foi então que algo me chamou a atenção.
Ele não falava dos projetos alcançados. Não entendia quase nada.
Falava, sim, das pessoas que haviam partido. Dois amigos de infância. Uma esposa. Um compadre.
Parecia fazer um inventário de ausências.
Quando nos despedimos, fiquei observando sua figura afastar-se lentamente pela calçada.
Naquele momento, lembrei-me de um velho sobrado abandonado que existe em uma das ruas de Aracati.
As janelas desapareceram há muitos anos. O reboco caiu aos pedaços. As telhas voaram.
Quem passa por ali vê apenas uma construção antiga.
Vejo uma história.
E foi então que compreendi algo.
As ruínas das casas não me entristecem tanto quanto as ruínas humanas. Uma parede rachada continua sendo apenas uma parede. Um telhado incompleto continua sendo apenas um telhado parcial.
Mas quando um homem começa a desmoronar por dentro, a dor é outra.
Pior ainda quando esse desmoronamento não é causado pela idade.
Conheci pessoas relativamente jovens que já haviam desistido da vida.
Não morreram. Continuavam respirando. Continuavam caminhando. Continuavam trabalhando.
Mas haviam perdido a esperança.
E talvez a esperança seja uma das colunas que sustentam a alma humana. Sem ela, o edifício permanece de pé apenas na aparência.
Com o passar dos anos, percebi que existem muitas formas de ruína.
Há a ruína provocada pela bebida. Há a ruína causada pelo orgulho. Há a ruína produzida pela ganância. Há a ruína que nasce da inveja. E existe uma especialmente cruel: a ruína do esquecimento.
Ela atinge muitos idosos.
Homens e mulheres que dedicaram a vida aos filhos, aos netos, ao trabalho e à comunidade. Pessoas que um dia foram necessárias para todos.
Depois, pouco a pouco, são necessárias para quase ninguém.
É uma tragédia silenciosa. Nenhum jornal anuncia.
Mas ela acontece todos os dias.
Talvez por isso eu goste tanto de escrever sobre pessoas comuns.
Cada vez que uma história é contada, uma pequena parte dessa ruína é derrotada.
Cada lembrança preservada impede que alguém desapareça completamente.
As casas antigas de Aracati merecem ser preservadas. Suas igrejas, sobrados e monumentos contam quem fomos.
Mas os seres humanos merecem cuidado ainda maior.
Porque uma parede caída pode ser reconstruída com cimento e tijolos.
Já um coração abandonado exige materiais muito mais raros.
Exige afeto. Exige respeito. Exige presença.
Ao voltar para casa naquele dia, passei novamente diante do velho sobrado.
As rachaduras continuavam lá. As telhas quebradas também.
Mas, curiosamente, já não era nele que eu pensava. Pensava naquele homem que acabara de encontrar.
E concluí que, entre todas as ruínas produzidas pelo tempo, nenhuma é mais triste do que a ruína humana.
Fortaleza, 27 de julho de 2026
José Nilton Fernandes