MALAGUETA DO DESERTO
← Voltar aos textos
O QUEIJO, O MACHADO E OS CUPINS

O QUEIJO, O MACHADO E OS CUPINS

5 leituras
O QUEIJO, O MACHADO E OS CUPINS

Zé de Luzia nunca foi homem de muito estudo. Mal terminou o ensino primário no Grupo Escolar Barão de Aracati. Preferia trabalhar, e trabalho nunca lhe meteu medo.
Comprava peixes frescos, salgava-os e deixava-os secar ao sol. Depois colocava tudo num caixão preso ao bagageiro da bicicleta e saía, ainda de madrugada, vendendo pelas comunidades rurais de Aracati. Quando a distância era grande, dormia onde encontrasse abrigo: na casa de conhecidos, debaixo de uma árvore ou ao relento.
Era trabalhador, econômico e auxiliava a mãe sem ela precisar pedir. De cada venda, guardava uma parte do dinheiro num velho baú herdado do avô.
Em junho de 1961, durante uma festa de Santo Antônio, conheceu Ritinha.
Foi paixão à primeira vista.
Dançaram a noite inteira tão agarrados que um curioso comentou:
— Ele entrou pra dentro dela, e ela entrou pra dentro dele. Nessa confusão, ele já não sabia se era ele, e ela não sabia se era ela!
O namoro virou noivado, e o casamento aconteceu em 1963.
A mãe de Zé ainda aconselhou:
— Meu filho, conheça melhor sua noiva!
Mas homem apaixonado não escuta conselho nem de mãe.
Poucos meses após o casamento, Ritinha anunciou a gravidez.
Veio então um desejo, conhecido em Aracati por antoje, que logo se transformou numa verdadeira obsessão.
Queijo.
Mas não era qualquer queijo. Precisava ser duro. Muito duro. Duríssimo.
Se o dedo afundasse um milímetro sequer, ela recusava na mesma hora.
Zé saiu à procura. Comprou um queijo bonito.
Ela apertou.
— Muito mole!
Comprou outro, recomendado pelo merceeiro como "duro de verdade".
Ela apertou novamente.
— Não quero essa porcaria!
E atirou o queijo no meio da rua.
Zé respirou fundo e recomeçou a busca.
Depois de percorrer praticamente todo o município, ouviu falar de um velho produtor de queijos na localidade do Preá.
Chegando lá, encontrou uma verdadeira coleção de peças esquecidas pelo tempo. Eram queijos tão antigos que pareciam fósseis. O produtor advertiu:
— Tenha cuidado. Se um desses cair da bicicleta, abre uma cratera na estrada.
Zé comprou três.
Voltou para casa convencido de que, finalmente, agradaria à esposa.
Ritinha examinou um por um.
Primeiro. Segundo. Terceiro.
A olho nu, os queijos não cederam, mas, aos olhos de Ritinha, afundavam e muito.
Zé esperou um sorriso. Um agradecimento. Um beijo.
Recebeu apenas:
— Não quero essa porcaria. Dê para sua mãe.
Foi demais.
Num acesso de fúria, Zé pegou um machado e desferiu um golpe contra um dos queijos.
A lâmina entrou. Mas nunca mais saiu. Depois de muito puxar, desistiu.
Arremessou o queijo, com machado e tudo, sobre uma ruma de lenha infestada de cupins.
— Fique aí até o inferno lhe amolecer!
O menino nasceu forte e saudável.
Apenas apresentava um pequeno detalhe: tinha o queixo quadrado, parecendo um queijo do Preá. Diziam, ainda, que quando suava exalava um discreto cheiro de queijo curado.
Nunca mais se falou em queijo naquela casa.
Três anos depois, Zé precisou do machado.
Foi procurá-lo na pilha de lenha.
O cabo havia virado comida de cupim.
A ferrugem comera o resto na lâmina.
O queijo, entretanto, permanecia impassível, como se os três anos tivessem sido apenas um fim de semana, como se já fosse igual à pedra desde que fora lançado.
Zé olhou demoradamente para aquela peça que parecia desafiar o tempo e chegou à única conclusão possível:
Existem duas coisas impossíveis neste mundo:
amolecer aquele queijo...
e satisfazer Ritinha.

Fortaleza, 28 de julho de 2026
José Nilton Fernandes