A ESMOLA DA TAMPINHA
A ESMOLA DA TAMPINHA
As feiras livres do Nordeste nunca venderam apenas frutas, farinha ou rapadura. Ali também circulam histórias, desafios, versos improvisados e um humor que sobrevive muito mais da inteligência do que da maldade.
Conta a tradição oral — dessas verdades que ninguém consegue provar, mas que todo mundo conhece — que, no início da década de 1950, um cego costumava pedir esmolas na calçada do Colégio das Freiras, em Aracati, defronte à Praça do Mercado Velho.
Sentava-se ao lado de uma pequena lata, onde caíam, de vez em quando, algumas moedas generosas. Eram poucas, mas suficientes para alimentar a esperança de mais um dia.
Certo dia, quatro rapazes vindos do Ginásio Marista resolveram divertir-se às custas do velho ceguinho. Um deles, em vez de uma moeda, lançou uma tampinha metálica na lata.
O cego permaneceu imóvel por alguns segundos.
Quem perde a visão costuma ganhar outros ouvidos. O som da tampinha denunciou imediatamente a travessura.
Sem alterar a voz, apenas ergueu a cabeça e respondeu em forma de bênção… ou de praga:
“Quem jogou essa tampinha
Só pode ser engraçado:
Se é solteiro, não se casa;
Se é casado, é enganado;
Se não for uma coisa nem outra
Só pode ser um veado!"
Fortaleza, 29/07/2026
José Nilton Fernandes
As feiras livres do Nordeste nunca venderam apenas frutas, farinha ou rapadura. Ali também circulam histórias, desafios, versos improvisados e um humor que sobrevive muito mais da inteligência do que da maldade.
Conta a tradição oral — dessas verdades que ninguém consegue provar, mas que todo mundo conhece — que, no início da década de 1950, um cego costumava pedir esmolas na calçada do Colégio das Freiras, em Aracati, defronte à Praça do Mercado Velho.
Sentava-se ao lado de uma pequena lata, onde caíam, de vez em quando, algumas moedas generosas. Eram poucas, mas suficientes para alimentar a esperança de mais um dia.
Certo dia, quatro rapazes vindos do Ginásio Marista resolveram divertir-se às custas do velho ceguinho. Um deles, em vez de uma moeda, lançou uma tampinha metálica na lata.
O cego permaneceu imóvel por alguns segundos.
Quem perde a visão costuma ganhar outros ouvidos. O som da tampinha denunciou imediatamente a travessura.
Sem alterar a voz, apenas ergueu a cabeça e respondeu em forma de bênção… ou de praga:
“Quem jogou essa tampinha
Só pode ser engraçado:
Se é solteiro, não se casa;
Se é casado, é enganado;
Se não for uma coisa nem outra
Só pode ser um veado!"
Fortaleza, 29/07/2026
José Nilton Fernandes